Nos anos 80, quando Lulu Santos cantava ''Garota, eu vou pra Califórnia/ Viver a vida sobre as ondas'', mal sabia ele que podia ficar por aqui mesmo. Com 8,5 mil quilômetros de extensão, o litoral brasileiro é pontuado por numerosas praias, ótimas para a prática do surfe. Esse cenário sempre esteve disponível, mas só ganhou destaque nas últimas décadas, com a popularização do esporte. E, graças à geografia e ao clima, é possível surfar de Norte a Sul do País durante o ano todo.
Para saber onde estão as melhores ondas, é preciso entender o swell, como os surfistas chamam as ondulações e ventos que chegam à costa brasileira. O fenômeno vem a partir do oeste, originado em alto-mar, por tempestades formadas em latitudes de 40 graus, acima ou abaixo da Linha do Equador. A distância e a posição da praia em relação a esses pontos, junto com a topografia do fundo do mar e as condições locais de vento, determinam a qualidade das ondas. ''A costa brasileira é bastante recortada; isso cria diferentes condições para o surfe'', diz o engenheiro e Ph.D. em Ciências Oceânicas pela Universidade da Califórnia, Elói Melo Filho.
Do Rio Grande do Sul até o Cabo de Santa Marta, em Santa Catarina, as ondulações e ventos chegam bem fortes e podem incomodar. O trecho entre o litoral catarinense e Cabo Frio, no Estado do Rio, é o mais bem posicionado para receber o swell originado no Atlântico Sul, que aparece com menos intensidade dali até o Rio Grande do Norte. Como essas tempestades se formam de forma mais intensa no inverno, a faixa mais ao sul é mais propícia para o surfe durante a estação mais fria.
Apesar das águas muitas vezes gélidas, muitos surfistas têm fascinação por essas praias, como a da Joaquina, em Florianópolis, eleita como uma das melhores por Roberto Perdigão, diretor regional da Association of Surfing Professionals - South America, organizadora dos campeonatos internacionais do esporte no Brasil. ''É uma onda completa, forte, tubular, com altura de até dois metros e ótima para se divertir'', garante.
Assim como Perdigão, a tricampeã brasileira Andréa Lopes, de 32 anos, qualifica a Praia de Itaúna, em Saquarema, no Estado do Rio, como de nível internacional. ''É uma das ondas mais poderosas e perfeitas do Brasil'', diz. Ali, já foi realizada até uma etapa do WCT, principal campeonato profissional da modalidade.
Brasileiro mais bem colocado atualmente no ranking internacional, Adriano de Souza, de 19 anos, conhecido como Mineirinho, cresceu no Guarujá (em São Paulo) e tem um carinho especial pela Praia de Pitangueiras. Mas é no Paraná que está a sua onda perfeita. ''Estive há pouco tempo na praia de Caiobá, em Matinhos, e é fora de série'', diz.
Caiobá também é uma das preferidas de Sérgio Laus, de 26 anos, recordista mundial de permanência em uma onda desde 2005, quando enfrentou a pororoca, no Rio Araguari, no Amapá, por dez quilômetros, durante 33 minutos. ''Por causa do fundo de pedra e de areia, quando a onda quebra para a direita, ela fica perfeita'', diz.
Já do Rio Grande do Norte até o Amazonas, a situação se inverte. O melhor período para a prática é durante o verão, quando as tempestades se formam no Atlântico Norte. ''Nesse local, as condições são mais sazonais; no resto do ano, é preciso se contentar com ondinhas'', diz Melo Filho.
O fundo do mar atua como um ''potencializador'' do swell. Quanto mais acidentada a plataforma continental, melhor. ''A energia nas ondas é focalizada, assim como a luz do sol ao passar por uma lupa'', explica Melo Filho. O resultado são ondulações maiores, como no Havaí. ''Se aqui houvesse cânions como os de lá, as condições para o surfe seriam ainda melhores'', diz.
Na maior parte do País, o litoral é formado por bancos de areia - pontos chamados de beach break. Eles tornam a qualidade das ondas inconstante, pois o fundo do mar é alterado pela intensidade das ondulações.
Nesse aspecto, o Nordeste, com seus recifes de corais, ganha pontos. Melo Filho destaca a Praia do Francês, em Alagoas. ''Se for cedo e tiver onda, pode ter certeza que é boa'', diz. Outra vantagem dessa região é a temperatura da água, quente o ano inteiro.
Para Picuruta Salazar, de 45 anos, nove vezes campeão nacional de long board, a Praia da Pipa (RN) tem o tipo de onda que qualquer surfista gosta. ''É pequena, mas longa, e permite fazer todos os tipos de manobras'', diz. ''Ainda melhor é a Praia de Serrambi, no Recife, em Pernambuco, pela fantástica bancada de coral.'' Mas, para ele, nada se compara a Fernando de Noronha. ''É o Havaí brasileiro.''

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