No Brasil, o conflito é silencioso
Qual foi a motivação em criar um coletivo que viajasse pelo mundo levando arte? Foi inspirado em alguma iniciativa já existente?
Não conheço nenhum outro coletivo com este foco e esse tipo de atuação. A ideia sempre esteve na essência, porém cresceu na medida em que o projeto foi ganhando espaço. Quando fundei o coletivo de artistas em 2008, em Caxias do Sul (RS), já tinha a ideia de fazer intercâmbios pela da arte, trazendo artistas para a região, levando criadores para fora e ensaiando trocas artístico-culturais com pintores, grafiteiros, fotógrafos, cineastas, performers, escultores e designers brasileiros e internacionais. No entanto, foi apenas quando eu decidi pesquisar arte contemporânea em outros países que a característica nômade foi acentuada. Eu queria conhecer o universo artístico de outros territórios, sondar possibilidades de mostrar artistas brasileiros no exterior e levar artistas internacionais para o Brasil. Assim, eu e o Conexus evoluímos juntos e de maneira orgânica nesta direção e o conceito foi criado.
Como é feita a seleção dos artistas que irão participar?
A área de atuação dos artistas participantes varia. Já trabalhei com criadores de diversas áreas e tento adaptar conceitos diferentes a cada projeto. Em Shatila (campo de refugiados palestinos em Beirute) usei muito a história e prática de retratos, trabalhando com os adolescentes ideias de identidade - que evoluíram e se transforma em um mural coletivo. Nesse caso, fotografia, desenho e pintura foram as áreas artísticas. No Vale do Bekaa (Líbano), trabalhamos a ideia de lar, pertencimento, e por isso foi fundamental realizar a pintura em uma escola e no campo onde os refugiados vivem, trazendo cores e fazendo com que se sentissem mais à vontade em seu espaço, apesar da situação difícil. Por enquanto trabalhei com desenho e mural, mas pretendo convidar mais artistas de outras áreas para desenvolver o conceito e praticá-lo com crianças e adolescentes nos próximos meses.
No Brasil a guerra é outra. O projeto já foi realizado em alguma região com população de risco?
Concordo. O Brasil é um país que vive uma guerra civil silenciosa aos olhos da imprensa e do público internacional - ou seja, é invisível à maioria. Nossos índices de violência são alarmantes e ultrapassam números em tempos de guerra. Também temos povos brasileiros que vivem como refugiados em sua própria terra e uma grande população de imigrantes que tem dificuldade de se integrar socialmente. Já trabalhamos em periferia e já levei muitas crianças em situação de vulnerabilidade social para a sala de cinema e aulas de arte, dentro de projetos educativos. Gostaria de fazer muito mais no Brasil, onde há tanto potencial e necessidade ao mesmo tempo. Só faltam recursos financeiros para isso: patrocínio, apoio e interesse local. (M.T.)





