No artificial 'Depois da Caçada', o alvo é a Academia
Filme de Luca Guadagnino, em cartaz em Londrina, aborda o tema do abuso sexual no meio acadêmico mostrando duas farsas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de outubro de 2025
Filme de Luca Guadagnino, em cartaz em Londrina, aborda o tema do abuso sexual no meio acadêmico mostrando duas farsas
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Diante de “Depois da Caçada”, entrando nesta quinta (23) em segunda semana de exibição em Londrina, não há como não lembrar de “Oleana” (1994), título exibido na época pelo Cine Ouro Verde/UEL há 30 anos (era pré Com-Tour ), um drama apenas regular originalmente escrito para o teatro, e depois adaptado-roteirizado-dirigido pelo autor da peça homônima, o dramaturgo David Mamet.
Este resgate-evocação da obra de Mamet, no qual a universitária que dá título ao filme, para justificar seu mau rendimento no curso, acusa um professor de assédio sexual, serviria agora como uma espécie de guia pioneiro para os abusos (sexuais e de poder) no mundo acadêmico, e assim nos guiaria para uma tentativa de avaliação do peso moral que paira sobre este “Depois da Caçada”; embora o título do filme de Luca Guadagnino sugira que, neste caso, a questão tem conotações políticas (macartistas), ou seja, busca diretamente uma reflexão sobre a cultura do cancelamento. E o resultado é infelizmente duvidoso.
A surpresa de “After the Hunt” é que ele não responde exatamente ao que se poderia esperar da agenda feminista desta era pós-MeToo #. Quando Guadagnino decide que os créditos do filme apareçam na fonte (e da simetria vertical) que Woody Allen usou em seus filmes, ele está fazendo uma declaração de princípios, considerando que o nonagenário cineasta nova-iorquino continua inominável, uma batata quente que boa parte dos profissionais ignorou para não manchar seu “histórico impecável”.
O que esse gesto significa, então? É difícil dizer, depois de assistir a um filme em que todos os personagens são desprezíveis – do suposto abusador, um determinado e impertinente professor de filosofia (Andrew Garfield, ex-Homem Aranha), ao seu suposto protetor e melhor amigo, também professor do mesmo tema em Yale (Julia Roberts, salva na prorrogação), à vítima (Ayo Edebiri), uma estudante de doutorado que o filme nunca para de criticar – são desprezíveis.

LENTIDÃO NARRATIVA
“Depois da Caçada” exala riqueza temática, mas não se pode ignorar que escapa por pouco de ser abertamente malsucedido devido à sua extensão excessiva (2h20, pelo menos 30 minutos dispensáveis) e a uma certa lentidão indisfarçável em nível narrativo, com tempos mortos que não levam a lugar nenhum e que poderiam ter sido removidos durante a edição diante da natureza estéril ou redundante de algumas sequências.
Sem dúvida, o aspecto mais interessante seria o choque entre as duas farsas: de um lado, uma nova geração em pose de risível indignação woke, buscando sem sucesso se sentir confortável em qualquer situação social. Uma utopia porque, no caso dos seres humanos, a simultaneidade (ou sincronicidade, território junguiano) perfeita é impossível; e por outro lado, um conjunto de veteranos ansiando por respeito, ou em suma, acumulando capital cultural para um futuro de reconhecimento comunitário que nunca chega, um novo espetáculo de palhaços que também não leva em conta que o outro sempre estará lá, enfiando espinhos em qualquer fraqueza discursiva deixada em aberto em nosso tempo. Na verdade, a era do absurdo borbulhante e da megalomania com data de validade.
Às relações de poder dentro da comunidade do conhecimento se soma no filme a desconfiança mútua entre os sexos, hoje mais do que nunca dos homens em relação às mulheres para não acabar dando ampla margem de influência a mulheres psicopatas que podem arruinar a vida do homem desavisado, aquele que, de tanto ventilar seu ego, se torna um pobre-ainda-mais-diabo.
No entanto, o maior problema do filme é que todas as situações apresentadas acabam sendo um tanto caricatas, e o personagem Alma (Roberts) acaba sendo um buraco negro que centrifuga e aniquila as possibilidades dialéticas da questão, que o roteiro envia em direções contraditórias e inconsistentes. Quando o epílogo chega, o espectador terá a sensação de que, em vez de um debate que acrescente novidades sobre #metoo, “After the Hunt” está parodiando seus argumentos. E quanto ao menor problema do filme, é que ele acaba penetrando fundo nas entranhas das misérias do mundo acadêmico. Já é uma vantagem, embora única.


