Em noite de São João, ele é um dos donos da mais tradicional festa junina do Paraná, tombada pelo Patrimônio Histórico Imaterial de Maringá. Antônio, o casamenteiro, também tem o seu lugar e muito trabalho para atender quem procura por uma perna de calça ou um rabo de saia. Pedro, o guardião das chaves do céu, apesar de levar em consideração a velha amizade com seo Zico - um grande contador de causos e organizador da festança há quase 30 anos - não atendeu as recomendações e deixou cair o maior toró; afinal, é respeitador da hierarquia celestial: milagre é lá com Santo Antônio
O aguaceiro apagou a fogueira de São João, mas não a animação das Iaiás e Ioiôs da festa junina tombada pelo patrimônio maringaense em 2008, que aconteceu terça-feira na Escola João Gentilin, na Gleba Pinguim, reunindo mais de mil pessoas.
O organizador da festa, Annibal Agenor Borghi, o popular seo Zico, 76 anos, puxa o baile e a quadrilha com direito ao casamento caipira em que a noiva foi uma dos seis filhos e o noivo, um dos 12 netos.
''Os pioneiros de Maringá gostavam de se reunir para festejar os santos juninos, mas depois de um certo tempo, a festa acabou. Em 1982 resolvi começar a fazer de novo no meu sítio. Juntei uns quatro ou cinco vizinhos. Rezávamos e depois fazíamos o baile'', lembra seo Zico que, além da família também tem agora o apoio da Secretaria de Cultura de Maringá.
Famoso contador de causos, seo Zico não aumenta nem inventa os números da festança, que fez a turma chegar ainda de manhãzinha para estourar 60 quilos de pipoca, preparar o vinho quente com 60 litros da bebida e mais 30 litros de cachaça para o quentão.
''Para mim todos os santos são iguais. Sou devoto de Santo Antônio, que é casamenteiro. Nesses anos todos recebi uns 12 convites de casamento de moças que soccaram o pau da bandeira de Antônio, João e Pedro'', afirma o anfitrião. A festa começa sempre com missa, terço e uma procissão até o pátio, onde o mastro é erguido para as promessas.
Com velas nas mãos, teve gente que não se importou com a chuva para cumprir o ritual de colar a vela no mastro. Como reza a tradição, se a vela ficar grudada, o santo sai em defesa de qualquer causa, principalmente, uma perna de calça ou rabo de saia.
''É a primeira vez que venho pedir ao santo. Estou namorando, mas agora quero casar'', conta a operadora de caixa, Tatiana Marchiori, 27 anos.
A empregada doméstica Maria Aparecida de Deus, 34 anos, casou, separou, mas não perde a devoção e, desta vez, e com muita fé, espera que os santos garantam a saúde da família.
Usando um vestido e uma peruca loira, o técnico em radiologia Cassiano estava atrás de uma parceira para dançar quadrilha. Na festa em que homem se veste de mulher para dançar quadrilha e em nome da diversão, um padre pé de valsa fez outros religiosos caíram no pecado da inveja, arrasando a noite toda no salão. Não sobrou para ninguém... nem padres cantores, padres atletas, padres caminhonheiros...
O padre Rogério Diesel, pároco da igreja Santa Rita de Cássia, no Parque Itaipu, não esquentou banco um minuto mas mas aproveitou para ensinar o valor da tradição popular e religiosa.
''A festa ajuda a marcar um momento importante na vida das pessoas. Além disso, traduz a cultura e a fé de um povo. Temos o privilégio de ter a nossa festança tombada pelo patrimônio'', comenta o religioso.
A secretária de Cultura de Maringá, Flor Duarte, destacou que o patrimônio histórico sempre é mais valorizado pelas edificações de uma cidade e que Maringá, ao tombar a festa junina, reconhece a importância das tradições populares e religiosas, garantindo a preservação. E que São Pedro não esqueça a velha amizade com seo Zico e no ano que vem não deixe que o mau tempo seja o bicão da festa.

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