Dizem que a poética é o discurso que nos permite a visão mais próxima da realidade. Viver um momento histórico e pensá-lo ao mesmo tempo é tarefa para poucos, pois exige um equilíbrio sutil entre o engajamento sóbrio e a paixão racionalizada.
Há cerca de um mês, durante o jornal do meio-dia da Universidade FM (107,9 MHZ), o professor aposentado da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Luis Melo apresentou a sua visão sobre a greve e o governo Jaime Lerner (PFL) em forma de repente. Ele é profundo conhecedor desse universo, a literatura de cordel nordestina. O resultado foi tão bom que acabou impulsioando os jornalistas da rádio, Patrícia Zanin e Jersey Gogel, a criarem um espaço para que manifestações sobre a greve fossem transmitidas nos mais diversos formatos, incluindo crônicas, cartas, paródias, poemas e composições sonoras.
Enviadas algumas propostas, a Universidade FM passou a veicular, desde a semana passada, essas reflexões sobre o momento histórico por que passa a UEL, em greve desde 17 de setembro desse ano. Inicialmente as vinhetas eram transmitidas a cada trinta minutos. A partir dessa semana mudou-se para um intervalo de duas horas, dentro de uma programação que vai ao ar diariamente das 7 às 23 horas.
Após o repente do professor, a Universidade FM recebeu um jingle (propaganda musical), produzido pela OZ Propaganda, de Londrina. Vieram também uma composição para orquestra (música descritiva) de Victor Gorni, uma crônica sobre as relações entre o ser humano e a peroba, do jornalista e escritor Paulo Briguet, e uma maravilhosa paródia da música ''Morango do Nordeste'' composta por Almir Salles, da dupla sertaneja Almir Salles & Rossi. Para os próximos dias, já estão programadas novas reflexões - um texto criado pelo dramaturgo Mauricio Arruda Mendonça em parceria com o jornalista Tony Hara e um spot enviado pela agência Egg Design, de Londrina também. O texto imagina um diálogo entre o governador e um de seus asseclas: ''Aspone: Você acredita, Jaime? Essa gente rude lá fora tem a pachorra de pedir aumento! Governador (Durante a fala, ouvem-se vários murros na mesa): Que aumento coisa nenhuma! Isso não é prioridade, guri! É o meu último ano de mandato! Já decidi que vou encerrar meu governo com chave de ouro. Um espetáculo que vai entrar pros anais da história do Paraná. Vou mostrar para o Brasil inteiro as imagens desse povo que tem orgulho de ser paranaense. Rafael já entrou em contato com a rede. Aliás, o Rafael tá adorando a rede''.
Marcadas pela observação astuta e irônica, todas as reflexões apontam aspectos importantes de um momento conturbado, tanto nos cenários local, estadual, nacional e mundial. A música de Gorni, composta, gravada e arranjada em um computador, por meio de sintetizadores, é um registro de como se pode descrever uma situação histórica por meio de sons. Trompetes, trompas e trombones representam a convocação para as discussões. Flautas, oboés e clarinetes mostram o clima das assembleías entre funcionários, estudantes e professores. Em seguida, a flauta inicia uma melodia em tom menor, representando a resposta do governo. Segundo Gorni, ''essa melodia é fraca e sem beleza, comum e previsível''. Segue-se até uma marcha fúnebre, simbolizando o ato de Lerner de não pagar os funcionários da UEL devido à greve. Enfim, um belo extrato de nossa realidade expressa por sons. Detalhe: sem nenhuma palavra.
O professor Luis Melo, por sua vez, apoiou-se na força das palavras para comentar as relações entre o governo e os grevistas. Em seus versos, Melo comenta as crises que abalaram o governo Lerner, como a venda do Banestado, a cobrança abusiva dos pedágios e outras polêmicas envolvendo o governador. Em síntese, Mello pede mais ''respeito'' aos professores, ao contrário de uma política que, segundo ele, ostenta apenas ''investimentos''. Esse trecho mostra um pouco da sabedoria do professor: ''Salário de delegado, de juiz, de promotor, não pode ser comparado ao de quem é professor: quem é que merece mais, o senhor governador? O que é melhor para o povo, ter acesso à educação com escola aparelhada, livro ao alcance da mão e professor satisfeito, ou ver subir mais prisão?''.
Outro raciocínio digno de comentários é a crônica de Paulo Briguet. Mantendo um estilo afetivo, o jornalista mostra a sua relação com a peroba, símbolo maior da Universidade. Ele conta que desde que chegou à UEL para estudar jornalismo, sua primeira amiga foi a peroba. Gravada por ele mesmo, a crônica ganha dimensões poéticas ao ser ambientada por uma composição ''Concerto para Violino e Orquestra em Sol Menor BMV 1056'' de Johan Sebastian Bach, e cresce mais ainda por ser enunciada pela sutilmente triste voz de Briguet. Leia nesta página, a crônica na íntegra.


''A greve segundo a comunidade'', vinhetas apresentadas a cada duas horas na Universidade FM (107,9 MHZ): interessados podem ligar para (43) 371-4681 ou 348-5027.

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