"Nível Cinco", "Terra Estrangeira" e"O Quarto Verde" inauguram nova programação da Cinemateca
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quarta-feira, 10 de março de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 11 (AE) - A Sala Cinemateca reabre as suas portas sendo agora programada por Leon Cakoff, diretor da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Três longas-metragens inauguram a nova fase: "Nível Cinco", de Chris Marker, "O Quarto Verde", de François Truffaut, e "Terra Estrangeira", de Walter Salles e Daniela Thomas. Três belos filmes, estranhos em níveis diferentes.
O mais insólito deles é "Nível Cinco", verdadeiro desafio crítico porque não pode ser aproximado com nenhum outro conhecido. Para se ter idéia, no centro da ação (se o termo cabe) está um computador. Manejando a máquina, uma mulher, que faz desfilar pela tela as imagens que capta na Internet. Ela se comunica com um ser ausente que se adivinha ser o grande amor de sua vida. Ao mesmo tempo, tenta aperfeiçoar um videogame que tem por tema a batalha de Okinawa, no fim da 2.ª Guerra Mundial no Pacífico. O nível cinco, que dá título ao filme, refere-se à morte, entendida como o degrau último de um aperfeiçoamento, o nirvana, a ausência de desejo e de dor.
Marker não faz cinema narrativo e a sucessão das imagens deve ser intuida, assim como seu sentido e finalidade. É aquele tipo de filme que só faz bem se o espectador consentir em mergulhar nele sem nenhuma rede de segurança, deixando que as cenas façam seu trabalho imaginário e formem um sentido apreensível apenas depois.
Não menos estranho é "O Quarto Verde", um Truffaut tido como mórbido e excêntrico em seu culto pela morte. A temática difícil causou o que seria de esperar, um tremendo fracasso de bilheteria. Curiosamente, Truffaut estranhou o insucesso. Dizia que todos tinham seus mortos para cultuar e portanto a história deveria obter alcance universal. Para compensar sua empresa, a Films du Carrose, o cineasta ressuscitou seu personagem mais famoso, Antoine Doinel, vivido por seu ator-fetiche, Jean Pierre Léaud, e rodou "O Amor em Fuga". Conseguiu assim sair do vermelho. Revisão - Na véspera do Oscar, "Terra Estrangeira", segundo longa- metragem de Walter Salles, merece uma revisão. Feito em parceria com Daniela Thomas, significa um notável amadurecimento do diretor de "Central do Brasil" em relação ao seu filme de estréia, "A Grande Arte". Este, adaptado de Rubem Fonseca e falado em inglês, respirava um excesso de artificialismo, embora algumas cenas do Rio de Janeiro tivessem interessante tom documental. Mas esse mérito não era, por si só, suficiente para justificá-lo.
"Terra Estrangeira" representa um grande passo adiante. Principalmente porque assinala um aperfeiçoamento conceitual. Salles revela-se um diretor em busca do seu país, quer dizer, de si mesmo. O País, na verdade, se tinha transformado num traste imprestável por obra da turma que assumira o poder. Quem não se lembra? O primeiro ato de Collor et caterva consistiu em nada menos que confiscar as poupanças pessoais, a pretexto de controlar a hiperinflação. Na época comentou-se que nem Fidel Castro ousara tanto durante a Revolução Cubana. Como o novo governo acabou também com o cinema, essa ação do governo transformou-se em tema fértil e disponível, tão logo esse cinema voltasse a existir.
Por isso, "Terra Estrangeira" começa com uma mulher (Laura Cardoso) morrendo ao saber que a ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, havia confiscado seu ínfimo patrimônio. E prossegue com os personagens de Fernanda Torres e Fernando Alves Pinto tentando a sorte no exterior. Era uma época em que se dizia que a única saída para o Brasil estava no aeroporto.
Mas como uma pátria não é como um sapato velho, que se tira e joga fora, todo exílio comporta um questionamento pessoal e um luto social. É nesse espaço que a trama policial (relativamente secundária) criada por Salles e Daniela encontra um sentido mais importante que o aparente. Melancólica meditação sobre um país em transe, com a fotografia poética de Walter Carvalho e um final que não se esquece jamais.


