O projeto desenvolvido com moradores do Distrito do Espírito Santo, zona rural de Londrina, pela atriz e psicóloga Maria Amélia Melo ganha um novo impulso a partir deste ano. Depois de dois anos de trabalho árduo e solitário, o Projeto Cometa Alegria, finalmente ganhou apoio e entra em uma nova etapa ao ser aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura.
Este ‘‘cometa’’ começou sua trajetória em agosto de 1996 trazendo para crianças, adolescentes e um adulto um pouco do universo teatral, num projeto batizado inicialmente de Teatro na Zona Rural. Reunidos na escola do distrito e na Associação de Moradores os participantes, orientados pela ‘‘professora’’ Maria Amélia, foram aos poucos entrando em contato com a fantasia e com a seriedade de se fazer teatro.
Maria Amélia explica que aproveita o lado lúdico que é inerente à criança para desenvolver o senso de seriedade do trabalho. ‘‘No começo as crianças tinham apenas uma intuição do que seria teatro. Nunca tinham entrado em contato com teatro, nem como público’’, conta. ‘‘Agora elas começaram a perceber o que é o trabalho e a sua seriedade. Ao mesmo tempo em que se trabalha de forma lúdica, se desenvolve o senso de responsabilidade e organização’’, complementa.
O projeto nasceu de duas paixões de Maria Amélia: o teatro e a zona rural.
‘‘Na região não existia nenhum trabalho cultural sendo desenvolvido, apenas educação e esporte’’, lembra. Aproveitando o canal aberto ela trouxe a idéia para a comunidade que a acolheu com entusiasmo. Em seguida foi até a escola e bateu de sala em sala perguntando para as crianças quem se interessava em fazer um curso de teatro. Durante um ano e meio o projeto foi desenvolvido com duas turmas: ‘‘Palhaço Sem Aço’’ e ‘‘Cometa Alegria’’ em dois períodos, de manhã e a tarde.
Nestes dois anos de existência o grupo cresceu, ganhou consciência do que é teatro, como diz Maria Amélia, e montou três peças: ‘‘Patinho Feio’’, ‘‘Menino de Rua, Presente de Dia das Mães’’, de autoria do próprio grupo e ‘‘De Cabo A Rabo’’ de Silmara Fernandes.
Sem patrocínio o trabalho foi sempre bancado pela própria Maria Amélia, que agora vê o projeto chegar em uma nova e esperada fase. ‘‘É uma etapa que estava sendo esperada há dois anos e meio que agora está se realizando. Não é fácil sustentar um trabalho destes’’, afirma.
Com a aprovação na Lei de Incentivo, o Cometa Alegria começa a trabalhar com profissionais de teatro que vão realizar oficinas de dança, pesquisa musical, voz, monociclo, perna-de-pau, palhaço, cenário, figurino. ‘‘Um dos objetivos do projeto é trabalhar de forma multidisciplinar para que os alunos recebam os mais diversos conhecimentos’’, explica Maria Amélia.
Conhecimentos estes que estão mudando a vida do grupo que hoje conta com 20 integrantes com idades entre 5 e 33 anos. A maioria crianças que encontravam pouco espaço para a fantasia em suas vidas. Com 12, 14 anos já trabalham para ajudar os pais.
‘‘As crianças estão sempre envolvidas em trabalhos temporários - carpindo, levantando um muro, adubando a terra’’, conta Maria Amélia. Em função desta rotina o grupo precisou adaptar seus horários e acabou se transformando apenas no ‘‘Cometa Alegria’’, que até o ano passado trabalhava em média três vezes por semana e em época de estréia, inclusive nos finais de semana.
O trabalho não é brincadeira, mas ninguém reclama. E a ‘‘professora’’ vê os resultados como algo que extrapola para a experiência de vida de cada um dos integrantes. ‘‘O fato de estarem participando de um movimento e serem responsáveis pela expressão deste movimento, de estarem dentro de um grupo e este grupo estar dando certo, ajuda-os a amadurecer para a vida’’, avalia.
A única adulta do grupo, Milza Poltronieri, 33 anos e mãe de quatro crianças que também viajam com este cometa, viu sua vida se transformar através do teatro. Uma espécie de braço direito de Maria Amélia, ela está no grupo desde a sua criação.
‘‘Sair de casa, fazer novas amizades, ir ao cinema, ao teatro. Tudo isto me ajudou muito. Hoje o teatro é fundamental na minha vida’’, diz. Milza viu as mudanças acontecerem com seus filhos também. ‘‘Eles eram muito tímidos agora estão crescendo mais comunicativos’’, diz.
A comunidade também colhe os frutos do ‘‘Cometa Alegria’’. ‘‘Estou resgatando um movimento de expressão cultural próprio destas pessoas, que antes não tinham espaço para se manifestar’’, afirma Maria Amélia.Dorico da SilvaProjeto Cometa Alegria é voltado, principalmente, para crianças e adolescentes que ganham novos estímulos fazendo teatroÉrika Pelegrino

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