Ninguém entende um mod
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quarta-feira, 20 de novembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Toda temporada traz um ''revival'' a tiracolo. É regra no mundinho pop. Dizem por aí que o próximo ciclo retrô vai resgatar o mod do baú, cujo estilo já estaria inspirando uma pá de bandas em algumas capitais brasileiras. Será?
Se a previsão se concretizar, o lançamento simultâneo de dois CDs este mês estampando os nomes The Kinks e The Jam nas capas, chega em hora oportuna para impulsionar a tendência. ''Give The People What We Want: Songs of the Kinks'' (Trama) traz um tributo do selo alternativo norte-americano Sub-Pop à banda que marcou os anos 60 com álbuns satíricos e canções raivosas de crítica social.
Fundado pelos irmãos Ray e Dave Davies, o The Kinks foi precursor do ''álbum conceitual'', lançando na frente de todos a ópera-rock ''Arthur''. Para alguns, sua importância foi nublada na Inglaterra pelo sucesso estrondoso dos grupos rivais Beatles, Rolling Stones e The Who. Por aqui, a coletânea-tributo tenta sanear a injustiça, embora deixe de fora músicas emblemáticas como ''You Really Got Me'', ''Lola'' e ''All of The Day, All of the Night''.
Mesmo assim, a homenagem rende versões empolgantes ao longo de 19 faixas. Entre os principais destaques figuram a instrumental ''Revenge'' (revista pelo obscuro duo C Average), a psicodélica ''Fancy'' (Jon Auer), a balada açucarada ''Waterloo Sunset'' (The Fasbacks), a melodiosa ''Ring the Bells'' (Model Rockets) e as ruidosas ''Gotta Get the First Plane Home'' (Young Fresh Fellows) e ''Who Will Be The Next In Line'' (Mudhoney).
A maioria dos participantes que formam a nova geração do selo Sub-Pop é desconhecida do público brasileiro. The Makers, The Briefs, The Minus 5 e The Pinkos são outros convidados que prestam as honras ao legendário grupo londrino, um dos responsáveis pela difusão da estética mod no mundo ao lado do The Who e do The Small Faces.
E em que consistia a estética mod? Acima de tudo, a paixão pelo soul e pelo rhythm and blues americanos, seguida da preocupação com um estilo de vestir e se locomover calcado em vespas, terninhos justos bem-cortados, gravata fina, jaquetas de três botões sobre camisas Irvy League e sapatos de dois buracos para o cadarço. O filme ''Quadrophenia'', inspirado no álbum homônimo do The Who, sintetizou a saga mod sessentista.
Lançado em agosto de 1979, estabeleceu reputações, moda e atitudes. Na época, a banda The Jam protagonizava a segunda dentição do mod em terras britânicas. Resgatando elegantemente o guarda-roupa do estilo, Paul Weller (vocal e guitarra), Bruce Foxton (baixo e backins) e Rick Buckler (bateria) emergiram do punk com influências soul num rock seco recheado de letras sobre a urgência de viver.
O CD duplo ''The Jam at the BBC'' (Universal), que chega agora ao mercado brasileiro, repassa a história da banda. Garimpa 38 canções mesclando sessões de estúdio e gravações em programas de rádio da BBC feitas entre 1977 e 1981. O painel recapitula clássicos como ''In the City'', ''The Modern World'' e ''Town Called Malice''. A compilação inclui fragmentos de entrevistas e algumas interações de Weller com o público nos shows ao vivo.
O The Jam acabou em 1982 por decisão de Weller, que formou o The Style Council antes de se lançar em carreira solo. O mod, porém, continua inspirando a molecada. Se bandas como a paulistana Ira! (da qual emprestamos o título deste texto) e a curitibana Relespública beberam tudo da fonte mod, a expectativa de um novo revival já as transforma em veteranas da vertente.


