Nina simone mastiga canções no Brasil
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de abril de 2000
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 16 (AE) - Antes de entrar no palco, ela manda que um emissário leia um poema do poeta afro-americano Langston Hughes (1902-1967). "A Justiça da deusa cega/É a coisa pela qual nós negros somos instruídos/Seus olhos vendados/Com feridas supuradas/Os quais uma vez, quem sabe, foram abertos."
Depois, ela entra em cena, cantando o lamento tradicional Black Is the Color of My True Loves Hair. As palavras não parecem sair da garganta de Nina Simone, mas de sua mandíbula, como se ela precisasse mastigá-las antes de cantar. Não é uma cerimônia fácil e, às vezes, aquela guturalidade desafinada parece uma ofensa aos ouvidos.
O público ainda parece meio desconfiado. Só vai aceitá-la plenamente quando ela cantar Here Comes the Sun, de George Harrison, a terceira canção de um total de 14, imediatamente reconhecível. Ela não suporta a arrogância das platéias que fumam e derrubam copos durante um concerto, mas ama subjugar a audiência com o jeito ríspido e generoso ao mesmo tempo.
Está exultante a veterana Nina Simone, aos 67 anos. Diziam que estava acabada, que sua voz não era mais a mesma. Mas ela foi buscar energia sabe-se lá onde e voltou dançando, segurando o vestido pelas beiradas laterais, equilibrando-se como se pulasse poças de água, uma Clementina de Jesus do baixo Mississippi.
A maior parte do repertório é composto de suas próprias composições, como Images (dela e de Waring Cuney), Liberian Calypso, Mississippi Goddam e Four Women. E aí se vê por que ela diz que o que faz é "música negra clássica". Por que não é só jazz, não é só black music, não é só blues - é algo ancestral, dada a rara intimidade e o genuíno respeito com que trata seus temas.
Mas reconhece também que a música negra autêntica não é só a sua, embora faça sempre o gênero prepotente, auto-referente. "Bob Marley, você foi maravilhoso", ela diz, enquanto faz a platéia dançar o refrão: "Get up, stand up/Stand up for your rights." E deixa os percussionistas, entre eles um brasileiro convidado, Marco Vasco, mandar bala na improvisação.
Como a diva a que ela aspira ser, ela conhece os recursos do drama teatral. Derrama-se em falsa tragédia durante o bolero Just Say I Love Him, mas logo em seguida retoma o fio de guerrilha racial em Mississippi Goddam. Num, a voz está escorregadia e caseira, como se estivesse ainda cantando em algum bar de Atlantic City. Noutro, as cordas vocais ficam em tensão constante, como se ela não fosse dar conta do recado - mas sempre dá.
Suas apresentações, no Via Funchal e no Bourbon Street, ilustraram a sua tese de que não é uma mera cantora de jazz, mas um elemento de conexão entre os sons de seus ancestrais. Seja cantando um blues suingado, como King of Love, ou um ritmo totalmente afro, como Westwind, ou um tema gershwiniano clássico
como Porgy, ela mantém uma linha de aproximação com as raízes. Ou seja: consigo mesma.
No final, não dava para ficar para o bis por que é sempre muito difícil tirar o carro do estacionamento. Mas a sensação de perda fica ecoando ainda por alguns dias. Dizem que ela cantou My Baby Just Cares for Me (de Gus Kahn e Walter Donaldson). Pena...


