Longa-metragem de estréia do pernambucano Heitor Dhalia, ''Nina'' está chegando às telas brasileiras. Antes da estréia nacional, porém, o filme foi exibido em festivais nacionais recentes, como a Mostra Internacional de São Paulo e o FestRio, e levou prêmios importantes em certames no exterior (melhor direção no Festival de Nova York e melhor fotografia no Peru).
O roteiro de ''Nina'' é do próprio Dhalia, a quatro mãos com o escritor Marçal Aquino, roteirista de um dos ícones da retomada, ''O Invasor''. A história é uma adaptação de ''Crime e Castigo'', de Fiódor Dostoievski, clássico cativo nas listas de obras imortais da literatura mundial. No filme, o personagem principal do romance, o estudante Raskolnikov, foi transformado em Nina, garota pobre que se considera exatamente o oposto das pessoas ''ordinárias'' que habitam a teoria do protagonista do livro. Para Raskolnikov, há os ''ordinários'' e os ''extraordinários'', estes obviamente superiores àqueles. Nina se coloca entre os últimos.
Como o anti-herói russo, Nina, interpretada por Guta Stresser, vive num quarto alugado no apartamento de Eulália (Miriam Muniz), mulher velha, avarenta e exploradora. O cenário é o centrão de São Paulo. Onde Nina não pára em nenhum emprego, vai a festas e se droga. Sem dinheiro para o aluguel, Nina é humilhada por Eulália. E esta rotina distorce a realidade na cabeça da moça. Subjugada ao extremo, com requintes de sadismo, Nina é levada ao crime, entre desequilíbrios e alucinações. E como Raskolnikov no epílogo do livro, ela é levada a uma boa ação, inesperada, quase inexplicável.
Com poucos diálogos, a realidade sombria atinge proporções quase surreais, alteradas pela percepção de Nina. É sempre o ponto de vista da personagem que prevalece, suas ações guiadas pela paranóia. A narrativa tradicional, eloquente e explicativa, é em consequência subvertida. O que o espectador vê na tela é um estado psicológico alterado e materializado num delírio de imagens da cor à não cor à maneira do expressionismo alemão, com o reforço de inserts de animação que privilegiam o preto e branco das histórias em quadrinhos influenciadas pelos mangás, a HQ japonesa. O diretor Dhalia e o co-roteirista Aquino assumem a busca de referências visuais na primeira fase de Polanski, no ''Iluminado'' de Kubrick, em David Lynch e nos irmãos Coen.
Filme que parece bem mais caro do que é (R$ 2,5 milhões), ''Nina'' tem na direção de arte um de seus pontos fortes. Tudo o que se vê em cena veio de demolições, ressaltando o aspecto gasto e decadente do apartamento de Eulália. Grandes espaços, pé direito alto, corredores amplos, escadas em caracol, cores quase ausentes. De certa forma, a estética foi conduzida pelo terror, o que resultou em clima de melancolia profunda. No bom elenco de ''Nina'' estão ainda Selton Mello, Mateus Nachtergaele, Renata Sorrah e Lázaro Ramos.

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