Nilson Monteiro (Curitiba)
Japonês calabrês, foi o diabo que te fez!
Seus olhos, rasgados e molhados, engoliram o preconceito cantado pela molecada antes e depois da II Guerra Mundial. Ou descarregado, durante o ardor do bombardeio lá na Ásia, aqui, em Londrina, em chutes de adultos contra seu velho rádio Philips.
Japonês nada. Brasileiro, isto sim. Primeiro nissei do Paraná, nascido em Ribeirão Claro, três dias antes do Natal de 1914, um ano depois de seus pais desembarcado em Santos, vindos da província de Koshi-Ken, ao Sul do Japão. Pensava tudo. Nada dizia. Se vê no rosto: filho ou neto de japonês, tudo japonês, raça que não se confunde, fazer o que? A ironia das cantigas infantis confundia.
Por que o diabo que fez? Nishikawa Massao ri pequeno, ajeita-se na poltrona, as pernas sobram no ar. Massao significa coragem nos direitos. Massa significa direitos e O, coragem. Suas mãos, que já passaram dos 80 anos, são grossas. As unhas estão sempre de luto, cheias de terra, que ele aprendeu a lidar desde criança. A testa tem a marca do chapéu, usado desde os primeiros anos para se proteger do sol na roça. Massao e seus cinco irmãos, filhos de Goichi, que procurou o Brasil para ficar rico, como fazem hoje os dekasseguis que buscam o Japão deram duro. Primeiro em Olavo Bilac, no estado de São Paulo; depois em Londrina. Goichi e sua família tinham direito a uma lata de 20 litros de arroz por mês, na fazenda onde trabalhavam, em Olavo Bilac. Mas, queriam mais. Pediram para plantar em um lugar onde só dava formigas. O administrador da fazenda não se importou. Goichi e seus filhos plantaram, espantaram as formigas e colheram 25 sacos em cascas. Nunca mais faltou arroz e exemplo na fazenda.
Por que as crianças misturavam japonês com calabrês em suas sátiras? Confusões de guerra? Rima pobre? Rica era a grudenta lama de Londrina, para onde a família mudou-se, depois de ter vendido, por 120 contos, 40 alqueires em Olavo Bilac. Masso aperta os olhos miúdos de recordações para falar da mata de peróbas, do mar verde, dos bichos e do trabalho. Minha vida é o café. Eu e meus irmãos, todo mundo trabalhava com o café. Até morrer, vou continuar plantando café. A geada mata, mas sou teimoso. Goichi, que teimava em assinar cheques com a grafia japonesa, para não perder os costumes e tradições de seu país, foi enterrado em Londrina. Permanece vivo, em uma aquarela pendurada na sala da casa de Massao. Seus olhos endossam o depoimento do filho.
Por que o diabo que fez? Massao espreme as mãos, os olhos e não consegue explicar. Nem entender. A Guerra, isto ele sabe, apimentou o preconceito. Antes dela, não se exigia que descendentes de japoneses tivessem nomes brasileiros. Depois dela, era obrigação. Tanto que os dois primeiros filhos do casal Massao e Tieko chamam-se Hiroshi e Siduka. Os outros seis têm nomes brasileiros: Luiza, Maria, Tereza, Amélia, Arthur e Irene. O que interessa, ele repete, é que esta terra roxa, vulcânica, visguenta e rica, é a sua terra. Onde ele plantou suas raízes. E café. Atravessando todas as histórias de geadas, cotações, quebras, falências, replantios, pragas, queimas, etc.
Traga fundo o cheiro da bebida e, entre risadinhas quebradiças, a sorve em goles assoprados, vagarosos. Gosto muito de café. Japonês toma mais chá. Mas, eu sou mesmo é brasileiro. E cafeicultor.PRESS E PÉS VERMELHOS





