Porque hoje é quarta. E poderia ser quinta, segunda, sábado ou qualquer dia desses neste multicolor país em que Pero Vaz de Caminha foi o precursor de minha profissão, amém. É terça, entende?, dia de batucar teclas para a Folha e dizer aos meus cúmplices que nossas quartas deixam de ter um pouco (desculpem a pretensão) dessas conversas fiadas que mantivemos nos últimos meses. Faz parte da vida dos escribas: assumi um novo compromisso profissional. Mas, não me desgarrei deste ‘‘amor antigo’’, como diria Zeca Corrêa Leite, que é a Folha, e de vocês, claro, a razão de nossa existência desde Pero Vaz de Caminha.
Porque hoje é quarta. E o Barigui, envolto em um abraço cinza, parece adivinhar esta paixão: escrever gruda, né? Ando pela cidade com a alma ensopada, tentando adivinhar a mesma magia que une pessoas nas barrancas de areia tórrida do Rio Ivaí, à terra visgo de Londrina ou ao colo fértil de Sertaneja às várzeas pretas que circundam Curitiba. Porque hoje é quarta. Os cabelos escorridos das árvores, abrigando pombos molhados e garotos miseráveis, acabam respingando dentro de mim. Na Praça Osório os meninos mijam e mergulham na água verde do chafariz, indiferentes ao frio, aos olhares gulosos de pernas polacas ou ao trânsito, caótico, do centro desta cidade. A Boca do Brilho, juro, está triste: ninguém se anima a engraxar sapatos. E a Boca Maldita ferve com os empacotados de sempre e o acender do rastilho das eleições que já mostram a cara, suas plásticas ou deformações. Contaram-me que, dia desses, um urubu, de vôo razante, estatelou-se em frente ao Bar Getúlio, no Bráz Hotel, de cujo ‘‘púlpito’’ Getúlio Vargas fez inflamado e histórico discurso em sua primeira gestão como presidente da República. Os fofoqueiros da Boca dizem que nada prospera naquele pedaço de calçadão - já fecharam suas portas algumas empresas que teimaram em manter sua sede no local. A causa??? Não, não foi o discurso de Getúlio, que ficou imortalizado no bar do hotel. Dizem os frequentadores da Boca que a causa foi a queda do urubu. Sabe-se lá! Aliás, é preciso reparar: os atuais administradores da cidade comeram um pedaço da Rua das Flores, antes dedicado aos pedestres, e o entregaram aos automóveis, cada vez mais vorazes. O decantado projeto urbano de Lerner e sua equipe pode estar se dissolvendo.
Porque hoje é quarta. E Aninha desponta em sua puberdade como se fosse um poema, descobrindo suas rimas, versos contorcidos de adolescente, primeiros amores, esses suspiros que o Rafa e o Ti andam vivendo em dias de chuva e sol há um bocadinho mais de existência. Como diria Aldir Blanc, aquele compositor e poeta maravilhoso, além de cronista ímpar, como é delicioso ser pai nesses tempos. Tão difícil quanto delicioso.
Porque hoje é quarta. Como está Londrina? O sol bate de chapa no relojão, passeia pelas bordas da cidade e se enfia no carrilhão da Catedral? Ou os pingos de chuva engordam o Igapó, o corpo vazando, líquido, barragem abaixo para a terra roxa do Jardim Igapó? Lavam as janelas, tristes, do Hospital Universitário, que tenta soprar o viver em milhares de pessoas? Ou o perobal, lembrança do início de todo este ajuntamento humano que encanta gregos, troianos, japoneses e italianos, canta na Universidade? Estou saudoso, nesta quarta, do ciscar dos garnizés entre as árvores do Bosque, no coração da cidade. Deve ser algo ligado a coronárias, né? E Maringá, esplendorosa em seu verdor? Paranavaí, Cambé, Foz, Irati, Umuarama... Mandem-me notícias seus jornalistas de uma figa, observadores, fofoqueiros de plantão, parentes, frequentadores dos botecos, amigos, inimigos... Anotem: o tal do e-mail é o seguinte: nmonteiro @ gazetamercantil.com.br
Porque hoje é quarta. Celebro Alice, Estrela, Marise, Reinoldo, Campana, Pellegrini, Capucho, Mazza, Oricolli, Jacques, Leminski, Bueno, Snege, entre tantos e entre todos. E lembro Helena, a musa Kolody, que ensina: é sempre madrugada para quem viaja ao encontro do sol. Tchau!

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