Nilson Monteiro
Garrafa. Magriço, a barriga redonda, os braços balançando, pensos. Nunca alguém perguntara seu nome. Nem ao irmão, Mané, também magrelo e cor de café fraco. Nem às irmãs, duas, que todo time comia e fazia de conta que não. Nem à mãe, lavadeira e cantadora de moda. Nem ao pai, falecido, como um irmão pequeno, que ninguém se lembrava mais. Garrafa e pronto.
Bem que tentou uma brecha no onze da Vila Ita. Mas, seo Cisio percebeu de bate-pronto que o negócio do rapaz era esquentar banco, berrando, xingando, batendo palmas. Ficava de beiço inchado, mas ficava. Mané salvava a moral da família, cheio de toques, dribles e gols que os escalavam entre os craques da várzea. Garrafa, no banco, louvava a pátria da Ita. E a mãe de todos os adversários.
Cedo, arrebitado o corpo seco para o batente. Passava no boteco do Tico, soltava seu verbo venenoso, estalava a língua numa branca, derrubava um gole para o santo e caía no mundo. O corpo gingava na magrela, marmita na garupa. Tem gente que jura ter escutado um assovio musical do Garrafa. Pela manhã, os mais velhos da vila já tinham colocado em dia as fofocas mais novas, descascado a madeira nos preços, lambido as saias mais curtas e, evidentemente, trocado filosofia sobre a vida do magriço, suas irmãs e amantes...
Noite descendo e a figura, mais amargo do que cachaça com mentruz, encostava o umbigo no balcão do Tico. Tomava uma. Duas. Os olhos de vaca que vai pro matadouro, braços de cipó, balangando. Puxava o primeiro desaforo, motivo qualquer. Futebol, crimes, sacanagens, a ladroeira política... Qualquer motivo era pretexto. Os habitantes da sinuca, envoltos na fumaça de cigarro avulso, davam de ombro. Garrafa enroscava a língua, o verbo tropeçando. Tomava até o queixo encostar no peito, os olhos mortos.
Nas ruas pobres da vila, Mané sapecava superioridade: jogava um bocado, tomava pouco, era empregado da prefeitura, vivia cheio de conversa. Tinha as mesmas irmãs do Garrafa, mas com ele ninguém olhava de rabo de olho. Magriço igual, mas diferente. Aliás, os cutucões pareciam não chegar a Mané: o irmão, mesmo meio lelé, entendia de futebol, arranjava algum no batente de pedreiro, não cantava de galo no seu terreiro, a vila que se entupisse de papo mole...
Não dá para contar nos dedos, juntando os das mãos e os dos pés, as vezes que o personagem emborcava fora dos limites da vil. Da cana, foi solto dúzia de vezes por seo Cisio, que conhecia, mais de perto, os encantos femininos da família. Garrafa, azedo no dia seguinte ao de qualquer zunzum, ai de quem lhe perguntasse algo sobre a lua anterior. Tempestade. Chegou a encarar encrenca de canivete nos dedos, tirando marra com Tico, o dono do boteco. Depois voltou, crista baixa, os cipós balangando, a barriga de bola, os olhos mortos. Também não dá para contar nos dedos as vezes que, emocionado, vibrou com Mané no futebol, chegando a molhar seus olhos de vaca que vai pro matadouro.
A vila só ficou sabendo no outro dia, espremida no boteco do Tico - o trem noturno estilhaçara Garrafa. Ele tomou o cuidado de encostar sua magrela, com a marmita na garupa, do outro lado dos trilhos.PRESS E PÉS VERMELHOS
A escritora Lygia Fagundes Telles é a homenageada do VII Tríduo Cultural, uma promoção da Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí, que visa divulgar a cultura brasileira. Entre as atividades do evento, há uma que está umbilicalmente ligada à produção artística do Paraná: a história do Festival de Música, Poesias e Contos de Paranavaí (Femup).
No dia 6 próximo, na sede do Diretório Central dos Estudantes, em Paranavaí, às 19h30, esta história será contada. Com direito a versos e toda emoção embutida em um quarto de século de festival.
Nos dias 7 e 8 próximos, Paranavaí viverá a intensidade de seu Femup. Com toda a corda.
Atenção setoristas de plantão: o Paraná exibe a maior média de crescimento anual de Produto Interno Bruto (PIB) na década de 90. E também o maior superávit energético entre os Estados mais industrializados do País.
As informações são do ranking Brasil, elaborado pela revista Amanhã, e Simonsen Associados. O ranking indica os dez Estados mais competitivos do País, baseado em 98 indicadores de riqueza e de infra-estrutura. A edição de Amanhã com esses números foi lançada ontem, na sede da Fiesp, em São Paulo.
Foi um barato, no último dia 18, em Londrina, a festa do reencontro do Poeira. Quase nos matou de emoções. Quem não foi, pode lamber os beiços: a moçada promete repetir a dose nos anos vindouros.
Quem não quer saber mais e mais sobre a vida e a obra de Darcy Ribeiro, este brasileiro? Lá vai uma pílula do que há em Confissões, lançado agora pouquinho pela Companhia das Letras: Enfrentei a vida com coragem, inocência e gozo, escreve, o livro registra desde os primeiros anos de Darcy Ribeiro em Montes Claros até pouco depois do famoso episódio em que ele foge de uma UTI e tira sarro da morte. As ilustrações são de Oscar Niemeyer.
O Brasil cabe dentro de um concurso de crônicas. As cinco premiadas no XI Concurso Nacional de Crônicas (Prêmio João Antônio), promovido pela Associação Bamerindus (dos funcionários do grupo), revelam este perfil. Foram premiados, sem ordem de classificação, os cronistas Washington Barbosa, do Rio de Janeiro, Carlos Augusto Conrado, de Curitiba, Francisco José de Ramos, de Belo Horizonte, Siane Cavalcanti, de Recife, e Maria Ignez Ferraz dos Santos Caetano, de São João da Boa Vista (SP).
A comissão julgadora, formada pelos escritores Jamil Snege, Wilson Bueno e pelo jornalista Silvio Oricolli, sintetizou: Estimulante! O local e a data de entrega da premiação serão divulgados brevemente, segundo a AB.





