Nilson Monteiro
Ivo AkioFoi em meio à uma daquelas madrugadas abafadas de Londrina, enquanto pregávamos cartazes nas paredes da universidade, que um dos amigos chamou minha atenção até então intuitiva. Estudantes, que pastoreávamos a noite alimentando sonhos de um país sem breu, fazíamos parte de uma opção política que brotou no bojo de 68 e suas feridas. Sob a nuvem de terror do AI-5 e do decreto 477, pessoas, como nós, optaram por buscar a democracia fazendo a política legal, enquanto outras procuraram caminhos diferentes, inclusive pegando em armas.
Éramos nós, crianças traídas por aqueles que entristeceram nossa existência com seu golpe em 64, um bando de espíritos libertários que amava os Beatles, a Bossa Nova, os Stones, Caetano, Vandré, Gil, Chico, Rita Lee, Janis Joplin, Joe Cocker, Os Mutantes, a Tropicália, a Semana de Arte Moderna, Lima Barreto, Pixinguinha, Drummond, Guevara, Portinari, Jorge Amado, JK, Brizola, Glauber, Pelé, Garrincha, Macunaíma...
Éramos um punhado multifacetado de adolescentes vincados no e pelo movimento estudantil secundarista, com a ditadura atravessada na goela. Na madrugada quente, um arrepio passou, lépido, por minha espinha.
Duas décadas, barriga saliente e muitos cabelos brancos depois, a saudade dá um nó na garganta quando a Mafalda, nossos ícone, baila em memórias, cantando, provocadora, o refrão que embalou um pedaço de nossas vidas: Levanta, sacode a Poeira e dá volta por cima. Provocadora, irreverente e consequente como o movimento que foi fatia talentosa do caldo cultural que fermentou intensamente em Londrina na década de 70. O Poeira marcou. Não sabíamos disso naquelas madrugadas. Mas, nascido daquele bando de pós-adolescentes e transformado em um movimento político massivo, revolucionou junto a outros núcleos borbulhantes, a cara cultural da cidade.
Londrina explodiu. No teatro, com o marcante Proteu. Na música, com Na Boca do Bode, embrionários de músicos como Itamar, Arrigo, Bernardo, Neusinha...Na literatura, com o Pellegrini e a criação de uma cooperativa de escritores. No jornalismo, que também teve sua cooperativa e o surgimento de outros jornais, além da Folha. No movimento dos professores. Na Semana de Atualidades (que se propunha a debater o País). No partido de oposição, que escalou candidatos - vencedores - em importantes eleições. Nas artes plásticas. Etc, etc, etc.
Dentro e fora da Universidade, o Poeira foi motor. Estimulando, promovendo, brigando, não aceitando aberrações como o 169, filho bastardo do 477 e outros vesgos da política governamental. Esparramou-se massivamente não só pelas madrugadas, com a colagem de cartazes e faixas, mas por defender a gratuidade do ensino, a existência do passe universitário, o funcionamento da Casa do Estudante, o fim do 477 e do seu clone, etc. Peitudo, ficou marcado pela coragem e os ouvidos abertos às reivindicações da maioria. Sacudiu a cidade com shows musicais (lembra do antigo Colossinho abarrotado de gente no show do Chico?). Ganhou prêmios nacionais com seu jornal. Enfrentou a sanha dos cassetetes, ao promover debates, furando o cerco policial e ao resistir, estoicamente, à tentativa de usurpação da sede do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e, em outra oportunidade, de sua máquina impressora. Estabeleceu decisões coletivas nos diretórios central e setoriais, em que todos metiam os dedos e os cérebros. O Poeira não era um rosto. Era muitos rostos. Talvez isto tenha embaralhado (e confesso que era um sarro) a repressão.
Lembra do arrepio na espinha? Agora, lembro: já havia tido a mesma sensação, na posse do Poeira para a gestão 75/76 no DCE. Primeiro, a posse, programada para o Teatro Universitário, foi transferida para o Canadá porque havia uma ameaça de bomba (aliás, enfrentou-se a mesma ameaça incontáveis vezes). Depois, olhos nos olhos, a platéia estava repleta de policiais, disfarçados ou não. O ar pesava. Tenso. Nosso discurso, circunstancialmente, esqueceu as reivindicações básicas dos universitários e as propostas de tentar resolvê-los. Naquele mesmo dia, a Polícia Federal (com a incorporação de policiais ou não, fardados ou não...) prendera (em nome da Operação Barriga Verde) dezenas de brasileiros, vários deles professores da universidade onde estudávamos. A maioria das prisões fora realizada sem mandados, de forma arbitrária, como era costume de então. Nosso discurso (publicado na íntegra pela Folha de Londrina ) fez a denúncia à comunidade. O ar continuou de chumbo, os policiais, disfarçados ou não, nos seguindo até nossas casas, vasculhando nossa intimidade.
Vinte anos depois, a ojeriza às ditaduras e seus aleijões, assim como o amor à humanidade permanecem. Os olhos estão mais maduros e menos inflamados dentro de óculos que teimam em enxergar melhor as virtudes do que os defeitos dos outros. É tempo - nascido da certeza de que nas diferenças viceja a democracia - de superar os estrabismos políticos. Vinte anos depois, esta História, que tem outros retalhos adoráveis, vai pipocar em nossos corações e mentes. em assembléia geral dançante. É bem capaz daquele arrepio, lépido, agitar, de novo, minha espinha. E a voz do Gonzaguinha brotar de dentro do peito: Começaria tudo outra vez, se preciso fosse, meu amor...PRESS E PÉS VERMELHOS
Quem quiser comparecer à festa do Poeira, anote o telefone para informações: (043) 995-6538. Não dá pra perder: dia 18, sábado, 22 horas, na sede da AABB, em Londrina.
O aquecimento dos motores (sem ranço, amplo, geral e completamente irrestrito) começará às 10 da matina, no bar Sabor e Ar, no Zerão.
Estão comendo um pedaço da Rua das Flores, a mais charmosa de Curitiba, bem na esquina com a travessa Oliveira Bello, e o devolvendo aos automóveis. Quase dois metros a menos de chão dedicado ao pedestre. Depois, não vem com este papo furado de respeito ao cidadão!





