Ivo AkioNão havia cafundó do Paraná em que a emissora não tivesse mobilizado um radialista. Todos ligados às cidades de maior peso eleitoral nas regiões do Estado, formando uma malha de correspondentes, cujas informações se afunilavam para o nono andar do edifício Júlio Fuganti, em Londrina.
Depois de dois dias tensos, dormindo de olhos abertos e ouvidos grudados aos telefones, dezenas de pessoas (jornalistas, locutores, técnicos, contínuos, padres, irmãos e curiosos), espalhados pelos corredores e estúdios, aprontaram um descarado Carnaval, apesar de a emissora ser custeada pelos bolsos da Igreja Católica. O então presidente da Aliança Renovadora Nacional (Arena) em 1978 no Paraná, Afonso Alves de Camargo Neto, acabara de conceder entrevisa à revista ‘‘Veja’’, admitindo que seu partido fora inapelavelmente derrotado no Estado.
A festa, os gritos de gol sem jogo, os beijos, abraços e lágrimas de emoção não aconteceram, naquele memorável dia de novembro, porque os jornalistas, locutores, técnicos, contínuos, padres, irmãos e curiosos vestissem a camisa do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) sob a pele. Na verdade, o tira-teima e a vitória daquela gente se deram contra a Rede Globo de Televisão. A rádio Alvorada, que saiu do terceiro para o primeiro lugar em audiência naquele mês em Londrina, jogou todas suas fichas no trabalho de um time ousado, sistematizado pelo jornalista Coutinho Mendes, um fanático pela notícia, especialmente a radiofônica. E, enquanto a ‘‘Vênus Platinada’’ insistia, a cada telejornal, em informar que o arenista Túlio Vargas disparava na frente do emedebista José Richa, a rádio Alvorada mantinha, resistente, a verdade que seus telefones e antenas captavam em cada pedaço do Estado: o MDB tinha folgada dianteira, inclusive ‘‘triturando’’ o partido do governo em direção ao Senado.
O desencontro de informações intensificou-se naquelas 48 horas: a Globo informava uma coisa e a Alvorada repicava outra. A rádio, escorada em sua teia de informantes, listagens de computadores e por análises de contabilistas, não poderia estar errada, teimavam Coutinho e seu bando de profissionais. Apesar de a TV, desde o início das apurações, noticiar o contrário, insistindo na correção de suas informações. Pontas de confiança espetavam a central da rádio, formada por três equipes, com oito locutores: a audiência crescera e, de cidades próximas ou distantes, ouvintes telefonavam, confirmando a veracidade das informações veiculadas pela emissora, endossando a teia; emissoras de São Paulo e Rio de Janeiro consultavam, a cada minuto, os resultados anunciados pela Alvorada; a própria Justiça Eleitoral confrontava seus resultados parciais com os da emissora. Virou um delicioso inferno.
O padre Trajano Horta respaldou o trabalho de sua (demoníaca) equipe. E apostou nela, de olhos vermelhos, sem dormir. Quando a Arena e a Globo reconheceram a vitória da Alvorada, a emoção já havia se esparramado para além do nono andar do velho edifício londrinense e dos receptores comuns: muitas lojas de Londrina e municípios sintonizados na emissora, espalhando o verdadeiro resultado das eleições pelas calçadas. ‘‘Bendito seja o jornalismo!’’, não se conteve, de olhos estalados e vibrantes, o padre Trajano.PRESS E PÉS VERMELHOS
• O Poeira, lembra? O convite é este: você não deve e não pode faltar.
• O que será que vai dar dentro da gente depois de 20 e uns tantos anos? Olho no olho: ninguém pode deixar de ver por dentro. Sentir. A cicatriz da História, cheia de lembranças, vai pulsar, tenho certeza. Em tom leve, solto, musical, na melhor assembléia que pudemos imaginar: ampla, geral, irrestrita e dançante. Dançante!
• É uma festa baile. De reencontro. Ou de encontro. Daqueles que foram, ou não, moldados pelo sopro do Poeira, um movimento estudantil que, modéstia às favas, levantou, sacudiu, fez a sua parte para tornar mais largos os horizontes do País.
• O local é público, a ditadura passou: Associação Atlética Banco do Brasil, na avenida Comandante João Ribeiro de Barros, 461, no aeroporto, em Londrina. Nossa história vai dançar. Feliz. No próximo dia 18, às 22 horas. Informações (043) 995-6538. O que será que vai dar dentro da gente?
• Depois de amanhã é o último dia para se ver ‘‘Os Idus de Março & os Ódios de Abril’’, ambas de autoria de Walmor Marcelino e que estão em cartaz no Centro de Convenções de Curitiba (Rua Barão do Rio Branco, 370). A primeira é uma farsa, dirigida pelo próprio Marcelino e a segunda, uma tragédia, com direção de P. Maia, às 21 horas.
• Vem aí um novo álbum com 14 novos trabalhos do Kambé, o Cláudio.
• Recebi ‘‘A Saideira (de bar em bar)’’, de Deusdeth Nunes, livro sobre os bares mais tradicionais de Teresina (PI). Um pro santo.
• Reinoldo Atem, além de poetar com competência (tem livro novo na praça), continua cuidando de seu ‘‘Olê-Olᒒ, bar ancorado na esquina das ruas Visconde de Nacar com Comendador Araújo, em Curitiba. Pode ser encontrado todas as quartas-feiras. Poetando.
• O Poeira, lembra?

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