Paulo não era apóstolo. Não saiu de seu país, a Ucrânia, e veio para o Brasil, como fez a maioria daquela leva de seus conterrâneos, plantadores de trigo, que não só semeou o alimento, mas deu início ao movimento cooperativista no Paraná no início do século. Seu primeiro trabalho foi como peão de obras no risco da estrada entre Palmas e Barracão. Depois, virou sapateiro e, antes que os horrores da Segunda Guerra sacudissem o mundo, enraizou os pés no barro preto de Curitiba, casando-se com Júlia, uma filha de poloneses. Conseguiu seu primeiro alvará para trabalhar com uma venda em 1934. Em tempos mais difíceis, ‘‘dona’’ Júlia ficava atrás do balcão e Paulo trabalhava como ambulante. Nem mesmo ele ousaria imaginar que Pedro, seu caçula, mantivesse a vida dos Szpak com seu comércio plantando magia em um casarão de madeira, que nos remete à uma alegria absurdamente infantil.
Há pregos, de todos os tamanhos, por todas as paredes. Nas do lado de fora, cor de abóbora, e nas do lado de dentro, cinzas. Eles sustentam, além do olhar menino/triste de Charles Chaplin e seu vira-latas em uma moldura plástica, martelos, serrotes, foices, enxadas, lampiões, fogareiros, varas de pescar, churrasqueiras, baldes, canecas, tamancos de madeiras, urinóis, peneiras, arames, latas para banha, chapéus de palha, botinas, latões para leite, em meio a salames, linguiças, broas, pães, réstias de cebola e cabeças de alho, goiabadas e outros doces, queijos, garrafas de aguardente e de vinho, nos entregando a um passado rural, com armazéns de secos e molhados à beira de estradinhas de pó e lama, mesmo estando em um dos bairros mais populosos de Curitiba, o Uberaba, dentro do Armazém Santa Ana, na Avenida Salgado Filho, onde veículos nos acordam, ferozmente, para o presente.
Pedro lembra nacos da saga de Paulo e outros ucranianos, que hoje devem somar cerca de 400 mil pessoas no Brasil, quase 90% delas vivendo no Paraná. O casarão onde desde 1951 funciona o comércio de seu pai é mágico e, com sua forma e pose, resiste à modernidade. Não há versos de Tarás Chevtchenko ilustrando seus cômodos, porém a simplicidade parece tecer uma teimosa poesia e lembrar dificuldades de quando preguiçosos carroções sacolejavam, provincianamente, nesta rua, em direção a São José dos Pinhais ou outras cidades mais ao Sul. Com forno à lenha e pombal nos fundos do quintal, a casa dos Szpak explica o híbrido urbano/rural. Antigamente, a região era composta de sítios e chácaras, que ainda convivem, em sua rara, cabocla e agradável existência, com luxuosos condomínios fechados e conjuntos de sobrados.
Em meio ao ambiente dos Szpak, onde se anda ouvindo os grunhidos do assoalho, Kiev é apenas uma fotografia européia. As cadeiras de palha sugerem felicidade sertaneja. Os mantimentos à venda (especialmente os salames picantes e os queijos, além de outros de fabricação caseira e uma deliciosa variedade de tira-gostos) e as bebidas são servidos com a velha e boa prosa, em mesas toscas, ou em um balcão, rústico, da época de Paulo. O lugar conserva (renova) a honestidade de mercadores que, além de vender, temperavam (temperam) sua atividade com conversa de amigo.
Os ucranianos, com suas igrejas de cúpulas bizantinas, e suas coloridas pêssankas, parecem ter vindo, como Paulo, para gravar um pedaço do Brasil no Brasil. Seu filho caçula, Pedro, a mulher com quem casou, Orlanda, e seus quatro filhos (três deles trabalham no Armazém Santa Ana, cujo nome é uma homenagem à mãe de Paulo), parecem soprar, delicada e brejeiramente, mas com toda a garra, os versos de Helena Kolody, que deu com os costados e a alma nesta cidade, recordando: ‘‘Vim das levas de imigrantes / que trouxeram na equipagem / a coragem e a esperança. Por fim, ancorei para sempre / em teu coração planaltino / Curitiba, meu amor’’.PRESS E PÉS-VERMELHOS
• Este Zé Antonio, hein, mantém uma exposição alentada - de seus trabalhos no Museu de Arte Contemporânea, em Curitiba, e, como se não bastasse, mostra a que veio também no Solar do Rosário. Anote: Rua Duque de Caxias, 4, na mesma cidade.
• Tarda, mas não falha: mais do que justa a homenagem prestada a Nitis Jacon de Araújo Moreira, a mais nova cidadã honorária de Londrina. Projeto dos vereadores Elza Correia e Antenor Ribeiro, que interpretam um sentimento de nacos consideráveis da população londrinense, materializado na entrega do título.
• Há quem escreva: há 288 crônicas inscritas no Prêmio João Antônio (XI Concurso Nacional de Crônicas), com participação limitada a funcionários do Grupo Bamerindus.
• Depois de amanhã, um quarto de século de história democrática de Londrina estará reunido no Galpão Nelore, em jantar comemorativo à existência do Diretório Central dos Estudantes da UEL. O órgão estudantil foi casa de aprendizado para correntes políticas distintas. Como ensina a tal da democracia.
• A revista ‘‘Amanh㒒 divulga no próximo dia 29, às 22 horas, na Federação das Indústrias do Estado do Paraná, em Curitiba, a pesquisa ‘‘Top of Mind’’, mostrando quem é quem nas marcas do Estado. Pesquisa com a chancela do Instituto Bonilha.

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