Moro em Londrina há mais de quarenta anos, desde que nasci, em outra cidade, e, neste barreiro vulcânico, braços de mais de trinta raças levantavam ranchos de palmito, substituídos, tempos depois, por casas de madeira encardida. A chuva respingava a cor do chão para enrubescer a pintura, qualquer uma.
Morar em Londrina é do espírito.
A cidade já sabia disto quando tinha 16 aniversários e eu, nenhum. Cercada de indígenas (Paiquerê, Irerê, Tamarana, Ibiporã...), a adolescente com origem inglesa, metida a besta, sempre abriu suas portas para o mundo. Olho gordo britânico? Olho esperto da mistura?
Quem mora nesta cidade tem que semear vento e tempestade: os desafios pedem respostas centelhas. Estirada em um espigão de roxo crônico, viu a peroba desabar e, pouco apegada a tradições e memórias, trocou a casca de suas casas. Passaram a ser erguidas com tijolos de cor encarnada, arrancados do barro do rio Tibagi. Das acanhadas taperas, a cidade viveu a opulência da arquitetura do café, nos anos loucos de 30 a 60. Depois, como convém a uma metrópole caótica de poucas décadas, misturou tudo. Fez das diferenças a unanimidade no verbo construir. E em tantos outros verbos. Das casinhas semeadas a torto e a direito em sua banda Norte, especialmente nos anos 70, às mansões que lagarteiam às margens do iluminado Igapó, aos paredões de concreto apinhados nas regiões ‘‘privilegiadas’’ pela febre imobiliária, paira a delícia da existência em Londrina.
É bom morar em Londrina.
Os sonhos da casa própria (entre tantos) foram disseminados. Ou pulverizados? Os olhinhos das luzes piscam, lá no ciúme das estrelas e nos quatro cantos da cidade, as mudanças da roupagem arquitetônica desse ninho humano. Os conjuntos habitacionais batizados de populares, que brotaram febrilmente nas últimas décadas, passaram de uma centena de núcleos. Nada demais para quem não teme desafios. Ali na zona Norte, onde o sol se deita às bordas verdes, a mão do homem comum parece ter curado a sanha política de fazer para ganhar (o verbo lucrar, em certas ocasiões, é muito casto) e moldou o seu bem viver, apesar do aperto dos cômodos. Os ipês, que pintam de amarelo suas calçadas desalinhadas por teimosas raízes, parecem insistir, a cada primavera, que a cidade é assim mesmo: peito de mamão, gosto de goiaba roubada no quintal vizinho. As pererecas se reproduzem nas bacias que se formam nos troncos das árvores depois das chuvas. como os peixes nas águas mornas do ribeirão Três Bocas. Sopra o bem-estar. Como no colo de mãe.
Moro em Londrina, todo santo dia, onde estiver.PRESS E PÉS-VERMELHOS
• Teve início ontem e prossegue aberta até o próximo dia 2, no Museu de Arte Contemporânea do Paraná, em Curitiba, uma nova exposição do artista plástico José Antonio de Lima. Mineiro, temperado em terras paranaenses, Zé Antônio, formado em Jornalismo, tem os olhos grandes e o coração debruçados sobre o mundo. É sensivelmente surpreendente.
• Passeio por Londrina: há um encontro fantástico, sempre às quartas-feiras, ao lado do Moringão, chamado de ‘‘Feira da Lua’’. Quer nome mais sugestivo?
• Em Londrina, todo mundo tem celular. E exibe. Feito fivela cromada de cinto. É a democracia da informação, dizem.
• Lanço um bate-boca: não dá para mudar as cores do Londrina Esporte Clube? Por que não adotar aquele vermelhão bonito da bandeira do município, mesmo que seja com o distintivo atual... Já que só há um time de futebol profissional na cidade, não há por que economizar na beleza das suas cores.
• Não sei se é besteira ou implicância, mas este azulzinho descorado atual, o tal do alvi-celeste... Por que não alvi-rubro, roxo, forte, com a marca da terra, mesmo com escusas às conquistas passadas (que, aliás, poderiam estar representadas pelo escudo atual)???
• Será que há identidade entre o londrinense e as cores atuais do time da cidade? A cor encarnada não faz mais parte do seu dia-a-dia?
• Gargalhei quando um repórter de TV forçou a barra dizendo que Londrina era a cidade mais inglesa do Brasil em uma matéria sobre a morte de Diana Spencer. Algo há: em Londres também há moto-táxi.
• Hoje é Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A liberdade de informar é de uma responsabilidade sem tamanho.
• Monteiro, meu velho: galo índio não abaixa a crista.

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