‘‘Bar tem que ter alma!’’
A frase, sábia, vem do copo do Geraldo Bolda, endossada por outras bocas que habitam, todo santo dia, o espaço exíguo deste bar que tem corpo, tem espírito e, sobretudo, humor. O Bar do Padre, em uma ruela D. João qualquer, no Cajuru, tem alma.
Com mais de trinta anos, cara de armazém ancorado na periferia, de porta única, mescla de sede de time de futebol (o alvinegro Estrela D’Alva) e bloco de carnaval (o desconcertante Catraias), este boteco, bodega, botequim ou ‘‘estabelecimento comercial’’, como prefere seu proprietário, é o próprio porto da amizade. Tem personalidade, tem identidade, tem vida. E o que é a alma senão a certeza da eternidade de que ninguém é igual a ninguém?
Bares há em Curitiba aos quilos. Sofisticados, arrumadinhos, desajeitados, esculhambados, pequenos, grandes, periféricos, centrais de atendimento vip ou nenhum atendimento, é bar de toda forma e padrão, bar que não acaba mais, com ou sem gelo. Mas, bares que ficarão na memória etílica, cicatrizados na existência bêbada desta cidade, são poucos.
O Padre é a alma do Padre. E o ecumênico clero, endiabrado, é o tecido desta alma. Ateu, à toa, crente, à direita, à esquerda, em cima do muro, pobre ou rico, de um time ou de outro, o que importa é a conversa. Papo regado a biritas, de qualquer procedência, e reforçado com a melhor ‘‘carne de onça’’ da terra, além de outros quitutes carinhosamente preparados pelo Padre, que de religioso só tem o nome. Ele, a partir da terceira dose, bebe junto com o freguês. Dos dois lados do balcão. E divide todas: piadas, fofocas, futricas, cizânias, lembranças, estórias e gargalhadas, sem deixar cair a peteca (ou o copo) no serviço. Tudo na maior flauta.
A vida, no três por três metros e não mais do que quatro mesas do lugar, fica sempre leve. Tal qual as teias que decoram as garrafas mais antigas das prateleiras. Ou as fotos, amarelas de lembranças, de times e do bloco carnavalesco. Ou a pintura de suas paredes, teimosamente decoradas. Ou suas lâmpadas embaçadas. Ou seu ‘‘lavabo’’, um por um na maior limpeza. Ou os saudosismos dos assíduos, sem hora pra fechar.
Aliás, sem hora vírgula: quando o Padre está de lua virada, ele, aí pelas tantas, espanta os fregueses sem a menor cerimônia. Não é simplesmente um dono de bar. É um híbrido de amigo (solidário, com fartura de exemplos), frequentador e dono de bar. Ah, mais: é o centroavante do Estrela D’Alva.
No Padre até enterro vira motivo festivo. Se houver sorte, animado por pagode ou pelo melhor chorinho que se faz por essas bandas. Qualquer pretexto é início de festa. Foi assim no féretro do (inesquecível) amigo Bolacha, reverenciado pelas mais irreverentes homenagens e gargalhadas não só na vida como na morte. E é assim no dia-a-dia, pode fazer fé. E dá-lhe festa, bicho! Uma ou duas pro santo e ninguém faz beiço: todos trocam conversa, do Bufren ao Náutilus, do Pira ao Gersinho, do Rocha ao Lauri, do Neno ao Carlinhos, do Mickey ao Cardoso, do Divanir ao Hélio, do Vanderlei ao Professor, do Luiz ao Neguinho, do Jacaré ao Bizzinelli, enfim todo mundo na roda, do médico ao pintor, do jornalista ao cobrador, do empresário ao desempregado... E o Padre divide todas. Presente, com sua barriga negra e dançarina escapulindo do corpo. Mas, principalmente, com alma, com toda a alma que se pode pedir de um bar.PRESS E PÉS VERMELHOS
q Com os olhos cravejados (é isto mesmo: cravejados, de flores e de música) de emoção, ela vibrou como ninguém, nos idos de 70, quando seu grupo, o Proteu, com ‘‘Verdugo’’, arrebatou quase todos os prêmios do Festival de Teatro de São José do Rio Preto (foi assim que vi seus olhos pela primeira vez). Prêmios e emoções, aliás, comuns à sua carreira de atriz, diretora, agitadora cultural. E corriqueiros à sua carreira de médica, mãe, mulher, de vida. Soma sempre disponível à efervescência, à polêmica, à evolução, no corpo aparentemente frágil de Nitis Jacon. Um corpo de passarinho. Livre e de olhos faiscantes.
q Nada mais justo que o título de Cidadã Honorária de Londrina à Nitis, proposto pela vereadora Elza Correia, já aprovado pela Câmara Municipal e nas mãos do prefeito Antônio Belinati. Londrina merece. A Nitis merece. Voa, passarinho, voa!
q A quantas anda o Festival de Músicas, Poesias e Contos de Paranavaí?
q O Dorival Torrente, uma das figuras mais queridas de Paranavaí (e uma das mais criativas do Paraná), recupera-se de um acidente, que o deixou longe dos palcos e das atividades do ‘‘Gralha Azul’’. Ele jura que não foi a atuação do seu Palmeiras nas finais do Paulista que o deixou todo torto. Sua filha, a Uiara, e a mulher, Nely, corintianas, ainda consertam o Torrente. O filho, Raony, não conta: é são-paulino. Sara logo, gente boa!
q A Gazeta Mercantil presta, amanhã, às 19h30, no Grand Hotel Rayon, em Curitiba, sua homenagem aos líderes empresariais do Paraná, eleitos - vejam só! - por voto direto. É a vigésima primeira edição da promoção.
q E agora, Hong Kong?

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