Adoro o canto dos pardais. Deve estar gravado em algum canto da minha infância. Ou no embaçado do futuro. Desde cedo, ele habitou as telhas carcomidas das casas onde vivi. Telhados sem forro, onde buracos deixavam nuas as estrelas espalhadas pelo azul do céu e a espalhafatosa sujeira dos ninhos, de onde, vez ou outra, despencava um de seus filhos ainda depenado sobre minha curiosidade. Sem luz, sem cor, feito criança esmolenta em rodoviária.
É um canto triste, monótono, triste, igual, triste. Não é estridente como o canto do joão-de-barro, nem tem os dobrados do colerinha, nem passa perto das firulas de um curió. Claro, em seu repertório pobre, não tem a harmonia de um rouxinol ou a arte de um canário belga, o enlevo de um canário do reino ou mesmo a vibração de um canário da terra. É um canto dos enjeitados, dos
malquistos, da praga. Para entoá-lo, contudo, o pardal infla a nódoa preta arredondada que lhe toma a garganta e o peito. Parece garboso. A pardoca limita-se a piar.
Desprezado por tantos, este desterrado da região paleártica (que vai da Europa e Ásia até o Himalaia e da África setrentional até o Saara) mostrou suas penas no Brasil pela primeira vez em 1903, durante a gestão do prefeito Pereira Passos, no Rio de Janeiro. Sabe-se lá como chegou aos telhados cariocas. Da ex-capital da República, voou, pendurado em vagões de trens, aninhado em embarcações marítimas ou sacolejando nas mudanças dos homens, para Curitiba, Itajaí, Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte, Londrina, Maringá... Cada vez mais desafeto do homem, classificado como muito mais nocivo do que útil, de cor-bruno-parda e tonalidades ferrugíneas, sem os tons mitológicos de uma gralha azul ou a alegria volátil de um beija-flor, ele cantou em Vitória e Belém, em 1928; em Goiânia, em 1945; em Aragarças, em 1954; em Brasília, dias depois de sua fundação. Estava, o pestinha, devidamente instalado no Brasil. Assim como disseminado em todo o mundo. Mesmo sem o bem-querer da humanidade, que ele, feito burro, teimoso, acompanha.
O pardal acostumou-se ao homem, é uma ave doméstica, que não consegue vida longe de sua presença. Porém, rejeitado, não serve para enfeitar gaiolas ou ornar ambientes. Suja bancos de praças, portais, estátuas, monumentos, aqui e ali, só ou em bando irriquieto, barulhento. Este sem-teto, ao construir seu ninho, nos beirais e calhas d’água das residências, só parece rebelar-se quando seu ambiente é entupido, por ele mesmo, por detritos. Torna-se agressivo, pois, ao brigar pela comida aos filhos, é obrigado a alimentá-los com insetos, quando sua natureza tem fome de grãos de cereais e sementes de gramíneas. Mas, é quase um resignado, ‘‘asa branca’’ urbano, quase um intérprete melancólico. Não tem a dimensão pungente, dura, do Madre Deus. Mas, alguns acordes são também nostálgicos, como folhas de outono em Lisboa...
Os pardais continuam a dividir comigo o espaço da alma. Levam gravetos, folhas, gramas, às telhas de barro enferrujado, nidificando em suas/minhas manhãs e tardes. Diferentemente de minha infância, hoje há forro, gelado, que me impede de espetar as estrelas com os olhos. Ou evita a queda de filhotes para dentro de casa (às vezes, eles despencam dos beirais trazidos pelo arrastão dos ventos ou pela violência das chuvas). A laje separa nossa intimidade, nos torna quase estranhos, apesar de habitarmos a mesma casa. Não sei se é um canto rouco ou louco (aliás, a pardoca pode ser chamada também de pardoloca). Sei, sim, que é um canto. Ouça.

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