Onde, Santo Onofre, padroeiro dos etílicos, a minha inspiração?
Bebo o colarinho de todos os copos e tento adivinhar nesta cidade, onde o verbo beber é conjugado em todos os tempos e modos, em que canto anda a minha musa inspiradora. Que sereia é esta, a 908 metros das espumas salgadas, onde o bafo da Serra do Mar chega, úmido e quente, às suas bordas geladas? Que formas líquidas e concretas com rugas de três séculos e pose de moderna bailando aos meus olhos de vampiro? Onde o coração de índia, alma cosmopolita, socando nas dobras de uma mochila de carne e osso, balão das tardes de junho?
Tento lamber os beiços de um pedaço da alma. Jogo mora ou jogo truco. Ou junto letras. Nos bares, refinados ou rudes, multiplicados, santuário onde tragamos o último texto do fundo dos copos, teimo em desenhar minha inspiração. Sonho. Manhãs, noites, madrugadas de aprendizado, paixões na garoa. Encharcado soneto, em que momento vive esta cidade? Por que esta ternura alçando vôo com seus pombos encardidos de cinza? Inspiração feito a poética de um ipê amarelo solitário. Ou da luz que vaz os pinheirais. Ou do discurso de dezenas na Boca Maldita, onde bendito nem o Papa.
Onde, Santo Onofre, padroeiro dos etílicos, a minha inspiração?
Tento destilar os caldos. Ou aprender com a chuva que mancha o espírito. Ou saber do lugar, em todo lugar, para sempre mais um. Ou de coisas da vida, com toda sua simplicidade. Quer exemplo, meu amigo?
Tirar, servir e sorver chopp é uma ciência. Está em páginas. Está em livros. Está na experiência. Está nos lábios. Está na emoção. Está nos copos, ora, meu santo. Faróis de poeta no bater cardíaco da urbe, Leminski, o Paulo, dizia o seguinte: ‘‘Rio é o mar. Curitiba é o bar’’. No ponto. Nem mais. Nem menos. Colarinho a gosto do freguês. Ou do amigo. Ou do amor. Ah, sim, com esta musa inspiradora, as meninas dos nossos olhos se alegram em alegres e tristes porres. Brilhantes. Ou mansas. Devoramos as meninas dos nossos olhos, franciscanos ou encapetados. Elas também nos devoram, meio polacas, meio morenas, meio floridas, meio negras, brancas de neve, loucas de frio, meio iluminadas, meio ensolaradas, meio fogosas, cabelos verdes escorridos na garoa.
Idéias que saltam do papel, anjos gritando loucuras, aqui, minha musa, a árvore é totêmica, a gralha é azul e a cidade, de muitas almas. Os corações náufragos não pedem trilhos. Nada de pé na estrada. Nada de porto seguro. Apenas mais um chopp.

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