- Frio?
- Que frio nada!
Em mangas de camisa, como baratas tontas, subiam e desciam a Avenida Paraná, desconfiados. Desconfiados de sua própria fala. Desconfiados da reza, miúda, quase soprada, desconfiada. Quatro grandes rugas geladas a marcar a história da cidade. Feridas abertas. No Bar Líder, um gole bêbado, estraga-prazer: ‘‘Vai gear. Pode escrever que vai gear!’’ A resposta vem de todos os cantos do bar e quase balança a lâmpada cara de tomate: ‘‘Vai gear a casa do chapéu!!!’’
A história embaralha a lógica. É 1953 e Londrina se vê invadida por uma enchente de bordéis de luxo e clubes de jogo. Os aviões da Real pousam cheios de mulheres trazidas do Rio de Janeiro e de São Paulo para o terceiro aeroporto mais movimentado do País. Pedro acende cigarro com dinheiro do grosso. Frio nos ossos, gosto amargo, é a primeira ruga. ‘‘A casa do chapéu!!!’’
O sopro nas xícaras sai quente, quase suplicante. Fordecos estacionados, cobertos de poeira roxa, inertes. Os negócios sumiram da pedra em frente à filial das Lojas Brasileiras, que virou Hudersffield, que virou nada. Os fazendeiros vestiam pulovers do avesso para espantar o fantasma gelado. Pouco adiantou: formaram-se filas nas portas do Banco do Brasil, do Siroco Bar e da Catedral. É 1955 e ela encontrou, branca, Pedro, de barbas geladas, abraçado a um pé de café morto.
Os mesmos e outros corpos doloridos rezaram pelo resto de raízes em 1963. A lágrima, de novo, adubou o chão. A água do poço virou lâmina aguda e as orações sopradas pela neblina. E se a negra (ou branca? ou tenha a maldita a cor que tiver) voltar, torrando, nos próximos anos, dias, segundos, torrando? ‘‘Sei lá. Melhor é não plantar café, tacar gado em cima da terra. Ou sei lá que tipo de planta. Todo ano é a mesma ladainha...’’ A terra tem visgo, mancha o homem, mancha as paredes da casa, mancha as barras da calça, mancha o dinheiro, mancha as calçadas, mancha a xícara, mancha os galhos de café, mancha, fica pregada na vida feito estrias. Pedro nem quer pensar nos prenúncios do céu. Reza, dorme e acorda com as estrelas soltas pelo céu gelado. É 1969. Ninguém tem coragem de olhar o mercúrio nos termômetros. Nem o terreiro.
O céu azulão ficou lanhado de tiras escarlates. No Edifício América, os cometários viraram reza pura, entrecortados por risinhos curtos, amarelos, povoados de lembranças. É 1975. ‘‘Vai gear. Pode escrever que vai gear’’. Alguém disse isso em frente ao Hotel Monções (ou foi ao lado da bilheteria de mármore do Cine Ouro Verde? Ou foi, sentado, em algum dos bancos da praça Willie Davids? Ou foi naquela pracinha em frente à Rádio Londrina?).
‘‘Vai gear a casa do chapéu!!!’’, a cidade inteira parece ter respondido. O céu limpo, azul, de repente ficou vermelho. Aí virou um inferno. A branquidão da geada se espalhou pela alma da cidade. O lençol branco congelou o sangue das plantas, a seiva dos agricultores. Braços estorricados. O desespero bateu fundo. Nos botecos das vilas, os olhos secaram, enxergando o nada, parados. A saliva sumiu. Pedro virou bóia-fria.
É 53, 55, 63 ou 69? Ou seria um julho de 75? As estórias deslizam pelo balcão da lanchonete. Contam que houve gente que estourou os miolos. Pedro, em junho de 97, indiferente, engole a brasa líquida do café e cospe preto na calçada roxa.

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