Nilson Monteiro - Curitiba
Impossível esquecer aquele cara. Cabelos enrolando por trás das orelhas, olhar bailando nas olheiras madrugadoras, boné de lado, figura sem harmonia. Metade de Campinas, pelo menos, o conhecia. Não conhece o Zezo? Então, não conhece a cidade.
Talvez porque fosse o avesso da sizuda e provinciana Campinas do final dos anos 60, ele era nosso ídolo de pelo menos meia hora ao dia, quase mítico como o Chê, Vandré ou Roberto Carlos. Nosso coração e humor viajavam a seu inteiro dispor, apaixonados e conduzidos à sua direção. Era o demônio, o Zezo, com suas asas angelicais. Na tábua, sim, andava sempre de pé pesado, driblando o trânsito. Os quilos dos pés pareciam arcar também sobre os olhos. Teria o sexto e sétimo sentidos?
Era bonito ver o ônibus jambrando pelas ruas e ruelas da cidade, com toda a perícia de quem enxerga de olhos fechados. Enquanto sentava o pé no acelerador, cantava. De tudo: desde modinhas do sertão até músicas em um inglês mentiroso, criado por sua paixão por Elvis Presley. Não se fazia de estrela, mas ia fundo no peito dos usuários dos ônibus, os chamava à brincadeira, pedia para cantarem, desafiava o cobrador, fazia graça com quem se sentava nos primeiros bancos. E dirigia.
Era impossível imaginá-lo como cidadão comum, pedestre de fim de tarde, nas ruas como qualquer um. Impossível imaginá-lo sem o uniforme, cáqui, da Companhia Campineira de Transportes Coletivos (CCTC). Era anjo/satã da guarda, senhor absoluto da direção, câmbio, freio, embreagem, sinais, senhor do ônibus. O passageiro não precisava, com ele, puxar a campainha para indicar que desceria no próximo ponto. Bastava um passinho à frente, um olhar ao condutor e não se ouvia o irritante aviso. O passageiro descia leve. E triste por perder a companhia do Zezo.
Era assim: seu mito crescia na proporção de suas ações. Presenciei, por exemplo, Zezo estacionar o ônibus, no meio de um quarteirão, com habilidade, e descer, cuidadoso, junto a uma velhinha solitária, que ocupou, por dez minutos ou pouco mais, o coração de sua alegria e o primeiro assento do coletivo. Zezo a ajudou e beijou suas mãos enrugadas, ao despedir-se. Ela acenou com os olhos molhadas. O ônibus todo ficou arrepiado.
Era um louco? Cumpria à risca seus horários, mas nunca se negava a parar fora dos pontos para quem quer fosse, uma dondoca de dotes físicos apetitosos ou um bem nutrido rapaz. Nem ao menos deixava de frear bruscamente para atender a um passageiro, aflito, fora das paradas normais. Brecava mesmo. Mas, berrava antes para prevenir. O novo passageiro entrava rasgando um sorriso. Os outros usuários também riam. Zezo, ídolo.
Esta idolatria vazou dimensões em uma das noites geladas e inquietas de 1969. O ônibus carregava corações e mentes, repletos das mais candentes palavras de ordem, de um irriquieto movimento estudantil. Canções e protestos: Abaixo a ditadura!, Viva Chê!, Estudante unido... etc. . E o Zezo também entrou na dança. Mesmo sem saber que música era aquela, que tribos cantavam aqueles imberbes pedaços de revolta. Entrou. Cantou junto. Gritou junto.
Minutos depois de atravessar ruas próximas ao 18º Batalhão da Polícia Militar, o ônibus foi cercado por barulhentas viaturas e soldados nada humorados. Todo mundo em cana. Motorista e cobrador juntos. Só permitiram descer dois ou três passageiros que nada tinham a ver com qualquer embrião de revolução ou farra que fosse. O Zezo ficou branco, cara de índio aculturado, manobrando, sob ordens nada educadas, para a delegacia da Polícia Federal.
Foram horas de interrogação. E outra de papo de Zezo com o delegado. A autoridade começou áspera, identificando Zezo com a subversiva gandaia de cantar chavões antimilitares. Mas, seu coração, ácido, amoleceu, aos poucos, diante das molecagens do Zezo. Deixa disto, seu meganha, essa cambada não sabe nem cantar. Manda tudo embora que tenho que pegar no duro amanhã às seis da matina ou Xerife, esses caras não sabem nem soltar traque de Santo Antônio e outras, muitas, frases que cutucaram o humor, prussiano, da autoridade. Zezo abusou do vocabulário, inclusive com seu inglês presleyano, alternando o volume, e o delegado acabou nos liberando, a todos, apesar de o azedume de seus olhos revelar a vontade de nos deixar a noite inteira gelando o tal ardor revolucionário atrás das grades.
Por quais caminhos viajará Zezo? Juro que queria encontrá-lo para ver se ele ainda tem aquela camiseta, vermelha, do Grêmio Estudantil Brasa, trocada pela camisa, cáqui, do seu uniforme da CCTC, que ainda guardo com carinho.Press e Pés Vermelhos
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