O poeta chegou. Desleixado. Chutou a cadeira com seus pés de sandálias e cara de karateca. Pediu um conhaque e atenção. Em 76 ou 77, tanto faz. Atiçou, com o ‘‘Catatau’’ no sovaco, bigodes emaranhados.
‘‘Sou um inventor de novas formas, novas estruturas. Não sou um bobo’’. Com a telha cheia de cana, conceitos, preconceitos, conflitos, filosofias, etc, o bando, ao redor da mesa, arreganhou os dentes. Gente de vários pedaços mastigava e bebia literatura em um dos bares do Largo da Ordem, na Curitiba úmida. Domingos Pellegrini e eu, pés vermelhos do Nortão do Paraná, os paulistanos Aristides Klafke, Arnaldo Xavier e Paulo Nassar, os curitibanos Hamilton Faria e Reinoldo Atem, o mineiro Antônio Barreto e Raimundo Caruso, de Florianópolis, lembro, entre outros, festejávamos. Espécie de guerrilheiros da palavra, tínhamos acabado de criar uma cooperativa de escribas para resistir ao breu de então. O poeta ironizava, questionava.
A polêmica, claro, virou mar. O flaflu juntou as galeras: de um lado, os escritores, digamos, ‘‘conteudísticos’’, e do outro, o poeta, só. Guerreiros, tão. O poeta provocando, acusando a outra banda da miopia técnica. Nós, outros, devolvendo, inflamados, as pancadas do diálogo. A mesa virou ilha. Os olhos gulosos dos frequentadores do bar não se desgrudavam dos signos comuns ao bando, próprios de panelinhas. Gulosos, curiosos e estatelados, demonstravam não entender vírgula alguma. Literatura era bicho de sete cabeças. Ou de um monte de cabeças. Mas, para poucas cabeças. O poeta envenenava: ‘‘Para o homem moderno, que vive a urbanidade a mil, um tempo industrial e tecnológico, esta poesia que vocês fazem e defendem vai ficando cada vez mais provinciana, inepta, com baixo teor de informação, uma babaquice’’. Alguém respondia fogo: ‘‘Você é só uma formalista’’. Outro endossava: ‘‘Seu trabalho é ligado a correntes vanguardistas européias, pura frescura’’. E o troca-troca de porradas verbais varava as horas. A cachaça com mentruz acabara. Os copos, azedos de cerveja. Outros, tingidos de vinho.
Todos nos sentíamos vinculados ao dever de criar, inovar. O nó, que jogava gravetos na discussão, era a forma. Vez ou outra, os debatedores amenizavam o verbo, quase dosavam, falavam de boas intenções, de um fim a ser seguido etc. Mas, as trincheiras eram ressuscitadas por qualquer fagulha. O incêndio era político/estético ou estético/político?
Inevitavelmente, do mundo da linguagem literária a conversa entornava para a política. Caldo apimentado. Áspero ou carinhoso. Pontiagudo ou solidário. Conflitante, sempre. Afinal, a tribo lítero/etílica ali reunida sentia-se, uns mais e outros menos, atingida na inteligência pela violência, sempre burra, da ditadura. Moleiras quentes, o pau quebrava com pretexto qualquer. Teses. Antíteses.
A ilha, horas depois, ganhou adeptos, tão encharcados quanto nós, tão interessados em atacar o câncer da ditadura quanto nós. O dono da igreja (desculpem, do bar) benzeu-se com o mais puro vinho. Respirou aliviado. Enfim, a sacrossanta unidade! Quando a paz parecia aninhar-se no colo da Ordem, Leminski, Paulo, o poeta, levantou-se, tomou, de gole só, um copo de conhaque e esmurrou a mesa: ‘‘Sou o único comunista deste lugar’’! De olhos marejados, enfiou a cara na noite gelada.PRESS E PÉS VERMELHOS
q Messias, ‘‘terra seca’’ que adotou e foi adotado por Maringá, cadê o livro sobre os bastidores políticos da cidade que você me prometeu? Há um bom tempo estou à espera.
q O artigo do Myltainho sobre drogas, publicado no número 4 da revista ‘‘Caros Amigos’’, é, no mínimo, perturbador. Recomendo leitura.
q Vem aí o primeiro CD do ‘‘Gralha Azul’’. O grupo continua espalhando belezuras, enquanto prepara o ‘‘compact’’ com suas principais músicas.
q ‘‘Amanh㒒, a mais importante revista de economia e negócios editada fora de São Paulo, com 38 mil exemplares mensais, crava os olhos no Mercosul, enquanto estende seus passos para fora do Rio Grande do Sul, onde, com muita competência, é feita. Paralelo à sua distribuição no ‘‘coração’’ econômico brasileiro (RS, SC, PR, SP, RJ e, em breve, Minas Gerais), um mailing com endereços de 300 empresas do Brasil instaladas na Argentina é mantido pela revista.
q Ainda bem que o Samuca, jornalista, historiador e ensaísta, deixou muito de sua visão crítica no papel, tudo escrito, para fomentar ou apaziguar polêmicas. É uma pena que, ao morrer, anteontem, aos 77 anos de idade, Samuel Guimarães da Costa ainda tivesse muito o que escrever. Ele era muito.
q O Laércio de Figueiredo Souto Maior está com um livro engatilhado sobre os dois séculos de quebra-pau entre o Brasil e os EUA. Quem pensa que tudo é harmonia, está fora de sintonia.
q ‘‘Sol Negro’’, CD de estréia da cantora Virgínia Rodrigues, realmente é do cacete! Cae sabe onde investe.
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