NIETZSCHE
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de agosto de 2000
Nelson Sato De Londrina 
De todos, ele é o mais implacável. Na seara da filosofia, Friedrich Nietzsche põe todos os rivais no chinelo desafiando a contemporaneidade com suas idéias. No centenário de sua morte, celebrado hoje em todo o mundo, não faltam motivos para se impressionar com a permanência de sua obra e sua capacidade para influenciar as mais diversas áreas da cultura.
No Brasil, sucedem-se manifestações inspiradas pela efeméride. No cinema, Júlio Bressane prepara a montagem de seu novo filme Dias de Nietzsche em Turim. No teatro, Gerald Thomas leva aos palcos o espetáculo Nietzsche contra Wagner. Na música popular, a cantora Marina volta a fazer shows depois de seis anos longe dos palcos pontuando entrevistas com frases do autor de Assim Falou Zaratustra.
E, como não poderia faltar, chovem palestras e debates em diversas cidades do país. Há três meses, Londrina sediou um encontro acadêmico promovido pelo grupo de pesquisa Perspectivas Nietzscheanas do Departamento de Filosofia da UEL. Agora é a vez do Rio de Janeiro abrigar dois eventos simultâneos: um, na UERJ e Uni-Rio, abordando temas variados de seu legado; outro, no CCBB, focalizando as relações de Nietzsche com a arte.
Em outubro, São Paulo entra no espírito da temporada acolhendo no Instituto Goethe o colóquio Nietzsche Um Século Depois. Também incentivado pela comemoração, o mercado editorial despeja uma fornada de títulos de e sobre o sujeito que definia o verdadeiro filósofo como um terrível corpo explosivo diante do qual tudo corre perigo.
Eu não sou um homem, sou dinamite escreveu ele em sua autobiografia, poucas linhas depois de assinalar o que julgava ser seu leitor ideal: um monstro de coragem e curiosidade. Para esse leitor, a oferta é generosa. A Companhia das Letras está lançando a tradução de Humano Demasiado Humano, de Paulo César Souza, dando continuidade a uma coleção que chega ao sexto número. A Relume Dumará arremessa um pacote que inclui a tradução de O Crepúsculo dos Ídolos (feita por Marco Antonio Casa Nova) e os volumes Nietzsche Metafísica e Niilismo (de Heidegger), Nietzsche e Deleuze Intensidade e Paixão (coletânea de textos com vários autores) e Alegria A Força Maior (Clément Rosset).
A Sette Letras traz aos leitores Zaratustra: O Corpo e os Povos da Tragédia (Carlos Henrique Escobar) e Nietzsche e a Liberdade (Miguel Angel de Barrenechea). A Pazulin vem de Nietzsche e o Círculo Vicioso (Pierre Klossowski). A Beca congestiona o mercado com Crítica ao Conceito de Consciência no Pensamento de Nietzsche (Marcelo Giglio Barbosa).
A Publifolha contribui com a badalação colocando nas prateleiras o introdutório Nietzsche, de autoria do professor da Unicamp Oswaldo Giacóia Júnior. A Discurso Editorial, por sua vez, amplifica o surto desovando dois novos títulos: Extravagâncias de Scarlett Marton e Nietzsche e a Dissolução da Moral de Vânia Dutra de Azeredo.
Completando a série de lançamentos, sai dos fornos mais um número da revista Cadernos Nietzsche, produzida pelo Grupo de Estudos Nietzsche (dirigido por Scarlett Marton), do Departamento de Filosofia da USP. Mais do que um fenômeno pontual, porém, Nietzsche lidera há tempos o ranking entre os pensadores mais cultuados entre nós.
O auge de seu prestígio talvez tenha ocorrido na década passada, quando Marx e outros de menor brilho foram afoitamente despachados do panteão dos intocáveis. Já na Europa, Nietzsche experimentou ciclos de glória e maldição. Em vida, jamais foi reconhecido. Escreveu 13 livros e uma avalanche de notas e rascunhos. É somente o depois do amanhã que me pertence. Alguns homens nascem póstumos anotou ele no prefácio de O Anticristo.
Nietzsche passou os últimos dez anos de sua vida praticamente no leito, vítima de uma paralisia cerebral, que muitos atribuem a uma sífilis adquirida na juventude. Parou de escrever depois de uma crise psíquica ocorrida na rua, quando viu um carroceiro batendo num cavalo. Após sua morte, a direita e a esquerda se revezaram na disputa pelo espólio. Durante um bom período amargou a pecha de nazista.
Em parte por culpa da irmã Elizabeth, uma adepta de Hitler que adulterou textos do irmão para torná-lo simpático ao Terceiro Reich. O filósofo, entretanto, odiava alemães e antisemitas combatendo qualquer forma de nacionalismo patrioteiro. Vários intelectuais saíram em sua defesa, incluindo Antonio Candido no Brasil que colocou os pontos nos iis no artigo Recuperemos Niestzsche, publicado no Diário de São Paulo.
A essa altura, ele passava para o campo da esquerda. Na França em particular, tornou-se a estrela guia em torno da qual gravitaram nomes como Michel Foucault e Gilles Deleuze. De lá para cá, interpretações de sua obra infestam periodicamente as universidades, quase todas ilegíveis se comparadas à fluente e afiada prosa do pensador.
Os principais temas que explorou, contudo, permanecem abertos à polêmica: a crítica corrosiva da moral e da religião, a demolição da noção de verdade, o ataque aos pensamentos abstratos e o questionamento dos artifícios da linguagem. Nietzsche reina.


