NIEMEYER EM PROSA E MEMÓRIA
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de setembro de 2000
Agência Folha 
A obra mais recente de Oscar Niemeyer não é de pedra e cal, nem de concreto armado. Minha Arquitetura, o livrinho didático de 110 páginas que a editora Revan acaba de lançar, custa R$ 15 e foi feito de prosa e memória, arrematado com fotos de época e com os croquis delicados do arquiteto.
Escrito em primeira pessoa, Minha Arquitetura é, sim, uma lição de vida. Nele, Niemeyer conta casos e causos, fala dos amigos com a mesma naturalidade com que põe em perspectiva as seis décadas em que projetou 420 obras, edificadas em 18 países.
O curioso é que o maior e mais polêmico arquiteto brasileiro revela, logo na introdução, que dá mais importância à família, aos amigos e ao combate às injustiças do mundo do que à própria arquitetura moderna, que ajudou a construir.
Trabalhando inicialmente com Lúcio Costa e, a seguir, com Le Corbusier, o franco-suíço importado pelo ministro Gustavo Capanema para projetar no Rio o Ministério da Educação e Saúde, Niemeyer logo traçou o seu próprio caminho. E o livro ora lançado é muito feliz quando esboça essa trajetória à luz da arquitetura contemporânea e das ideologias que marcaram o século.
Comunista de carteirinha, combatendo o funcionalismo e a rigidez da Bauhaus no mundo das artes plásticas aplicadas, Niemeyer tomou um sem-número de tijoladas estéticas e ideológicas, mas não esmoreceu.
O arquiteto que Le Corbusier dizia ter as montanhas do Rio nos olhos projetou a Pampulha, em Belo Horizonte, o edifício-sede das Nações Unidas, em Nova York, o parque Ibirapuera e o edifício Copan, em São Paulo.
Depois, com JK eleito presidente, se entregou à construção de Brasília, plantando no Planalto Central palácios de formas líricas, que exploram os limites da plasticidade do concreto armado.
Perseguido pelo regime militar, Oscar Niemeyer trabalhou na França, na Itália, em Portugal, na Argélia, em Israel, no Líbano. Hoje, aos 92 anos, Niemeyer segue no seu ofício de criar museus, esculturas e até de escrever livrinhos como Minha Arquitetura, leitura indicada para estudantes da área.
Isso quando os amigos, que ele cultiva com tanto cuidado, não atrapalham o seu trabalho, em busca de dois dedos de prosa. No seu ateliê-cobertura, em Copacabana, o arquiteto, que se define como apenas um desenhista, sempre recebe visitas para falar das coisas simples da vida e nos lembrar de que, diante das estrelas, somos pequenos, muito pequenos.


