Niemeyer de corpo e alma
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de setembro de 2002
Maria Hirszman<br> Agência Estado 
Muitos são os livros escritos sobre a vida e a obra de Oscar Niemeyer, consagrado há muitas décadas como um dos grandes nomes da arquitetura do século 20. É possível dizer que não há um projeto seu, do mais grandioso ao mais humilde que não tenha sido escarafunchado por uma série de especialistas, críticos, e, sobretudo, admiradores. Mas mais raras são as oportunidades de sentir de perto seu profundo engajamento social e coerência política, como a que está sendo dada agora ao leitor com o lançamento de ''Conversa de Amigos''
Na troca de correspondências entre o arquiteto e seu amigo e companheiro de trabalho, José Carlos Sussekind, há evidentemente interessantes comentários acerca de arquitetura e arte. Mas predomina de maneira evidente a relação de admiração e troca estabelecida entre o arquiteto e o engenheiro, que comentam - com uma mescla de otimismo e desânimo - o mundo que os cerca.
Com o mesmo cuidado com que faz a projeção dos cálculos estruturais para Niemeyer, Sussekind escreve suas cartas de maneira a provocar Niemeyer, a levá-lo a comentar aquilo que sabe e a dar o seu testemunho - muitas vezes de forma até comovente - sobre os temas mais variados. Arquitetura veneziana, corte de energia elétrica ou a filial do Guggenheim no Rio (tema que, infelizmente, Niemeyer evita, por não gostar de falar da obra de outros arquitetos), tudo é motivo para que os dois reafirmem suas convicções, e opiniões. ''Como você sugere, não vamos cuidar apenas dos nossos problemas profissionais. Vamos falar de tudo, Sussekind. Da vida, da política, do ser humano, deste universo que nos humilha e nos encanta.''
Ao lado da arquitetura - muitas vezes lembrada por meio de casos concretos, como a construção de um museu no Paraná ou do caminho Niemeyer, em Niterói, e principal elo entre os dois amigos -, o eixo central do livro é a defesa incondicional do nacionalismo, da necessidade de proteger não apenas a cultura, mas a nação como um todo, do globalismo crescente. Em comum, há ainda a paixão pela literatura de Eça de Queirós, a qual voltam com o mesmo ânimo da juventude.
Mas também vai-se construindo ao longo do livro uma crescente cumplicidade entre os dois. Há um evidente fascínio desses dois homens ilustrados pelo hábito saúdavel da correspondência, pelas longas trocas epistolares que já renderam tão belos livros. É bem verdade que a modernidade tirou um pouco do charme desse processo. Em vez da espera do correio, as cartas foram trocadas com a ajuda do fax e, na maioria das vezes, em um intervalo de tempo surpreendentemente curto. Outro fator que compromete um pouco o impacto das cartas é que os dois também se comunicavam de outras formas (pessoalmente ou por telefone) e são obrigados como que a fazer pequenos resumos do que está ocorrendo fora do livro para os leitores.
Mesmo assim, em vários momentos os comentários sobre os temas de maior interesse dão lugar a pequenas crônicas sobre o dia a dia e lembranças afetivas, como o belo trecho em que Niemeyer relembra os últimos dias de Joaquim Cardozo. O poeta e engenheiro, que o ajudou na construção de Brasília, foi, na verdade, o primeiro estopim para a realização desse livro, cuja proposta era, como explicita Sussekind logo na introdução, a de Niemeyer exercitar com ele ''o registro escrito que poderia (e deveria) ter sido feito entre ele e Cardozo, 50 anos atrás''.
Ou os trechos em que falam, com discrição, da vida privada. ''E me recordava do tempo que passou. Do meu casamento, mais de 70 anos atrás, e Anita, generosa, ainda a me acordar todos os dias para o trabalho. Às vezes finjo estar dormindo, para não lhe tirar o prazer de me dizer, em voz baixa: 'Oscarzinho, são oito e meia.'''
Outro aspecto interessante do livro é a descoberta de Sussekind. Se muitos conhecem a maneira de pensar e o poder de sedução de Niemeyer, ele se tornou interessante oportunidade de conhecer o engenheiro que tem em seu currículo obras importantes como o sambódromo. Por trás da admiração por vezes um pouco repetitiva pelo mestre, que conheceu no final da década de 60, descobrimos pouco a pouco um homem que ainda é capaz de se indignar com os absurdos e misérias que cercam o mundo em pleno século 21.
SERVIÇO: ''Conversa de Amigos'', de José Carlos Sussekind, Editora Revan, R$ 28, 252 páginas).


