Niemeyer chega aos 90 anos sonhando com a cidade ideal
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segunda-feira, 15 de dezembro de 1997
Rosângela Marques Agência Estado 
ReproduçãoSe fosse me preocupar com os críticos, não teria feito nada de diferente, apenas repetido as formas, diz NiemeyerO arquiteto Oscar Niemeyer comemora seus 90 anos de idade hoje, sonhando com a cidade ideal. Para o criador do projeto de construção da cidade de Brasília, considerado um dos grandes responsáveis pela revolução da arquitetura mundial, essa cidade só será possível quando houver justiça social e igualdade entre os homens.
Carioca de Laranjeiras, ele foi educado em colégios de padres, cresceu assistindo a celebrações de missa em sua casa mas não segue nenhuma religião. No entanto, sempre empenhou-se com carinho na idealização de templos religiosos. O que ele queria, mesmo, nos tempos de criança, era ser jogador de futebol. E, enquanto a maioria dos rapazes do seu tempo decidia estudar o curso da moda, a advocacia, ele optou pela arquitetura. Fez seu primeiro projeto há exatamente 60 anos, na Lagoa Rodrigo de Freitas - a Obra do Berço.
ReproduçãoO edifício do Congresso Nacional foi construído em 1960O impulso definitivo em sua carreira foi dado a partir de sua amizade com o jovem médico mineiro Juscelino Kubitschek, que era prefeito de Belo Horizonte em 1940. Primeiro foram os projetos da Igreja de São Francisco, do Hotel da Pampulha, do cassino e do Iate Clube. Em 1947, teve a honra de ser incluído entre os dez arquitetos encarregados de apresentar o projeto da construção da sede da Organização das Nações Unidas (ONU). Seu projeto foi o escolhido, e ele trabalhou em conjunto com Le Corbusier, considerado o pai da arquitetura moderna.
Socialista No Brasil Niemeyer enfrentou problemas por se declarar socialista convicto, mas jamais abriu mão de sua ideologia. Mesmo tendo em seu currículo o projeto de construção da sede da ONU, teve cancelado pelo governo brasileiro o contrato assinado para o projeto de construção do Centro Técnico de São José dos Campos, apesar de ter sido o vencedor de um concurso nesse sentido. De acordo com as versões que correram na época, foi porque ele andou fazendo propaganda de um jornal do Partido Comunista.
ReproduçãoCadetral de Brasília: uma de suas obras mais bonitasEm setembro de 1956 recebeu não um convite, mas um desafio do então presidente Juscelino: trabalhar no projeto de construção de Brasília. Em suas palestras pelo País, ele costuma lembrar que, quando foi pela primeira vez com JK até o local onde seria construída a nova capital federal, se deu conta do tamanho do desafio: aquilo tudo era um imenso deserto. Mas o desafio estava lançado e foi vencido graças, segundo ele, à importante ajuda de Lúcio Costa - o responsável pela parte urbanística - e o engenheiro Joaquim Cardozo, muito sensível e criativo.
Ameaça Niemeyer viveu tempos difíceis durante o regime militar, quando chegou a correr risco de ser preso sob a acusação de ter dado dinheiro a guerrilheiros e de manter ligações com Carlos Marighela. A partir daí, resolveu mudar-se para a Argélia, onde fez o projeto de construção da Universidade de Constantine, em 1969. E passou a receber convites de várias partes do mundo, para idealizar novas obras. Na volta ao Brasil, projetou o obelisco da estátua de JK em Brasília, no qual se vêem claramente a foice e o martelo, e o Memorial da América Latina, em São Paulo.


