Ney leva 'Batuque' ao Teatro Guaíra
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de agosto de 2002
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba Os curitibanos vão ter que esperar mais alguns meses para ver o mais recente show de Ney Matogrosso, ''Ousar Ser'', onde o artista homenageia Cartola. Por enquanto, ele continua a trajetória de ''Batuque'', espetáculo que apresenta hoje na capital paranaense e que depois segue para Punta del Leste para encerrar a turnê.
Esta é a segunda vez que ''Batuque'' é apresentado no palco do Teatro Guaíra. Ney esteve em Curitiba o ano passado, quando lançou o disco homônimo. Agora volta para se despedir e aproveita a deixa para anunciar o seu novo trabalho.
Para o cantor, os dois espetáculos têm direções opostas, mas mostram a versatilidade inerente à sua carreira. ''Batuque é mais extrovertido, eu já tinha afinidade com quase todas as músicas'', revelou Ney, em entrevista à Folha2 . O disco é 22º trabalho do cantor. Reúne velhos sambas e choros das década de 30 e 40, além de seis músicas do repertório de Carmem Miranda.
A paixão por Carmem, aliás, é antiga. Surgiu quando o menino, nascido em Mato Grosso do Sul, em 1941, costumava imitar a pequena notável já aos três anos de idade. Anos mais tarde, Ney integrava o grupo Secos & Molhados, parada obrigatória num passeio musical pela boa década de 70. Mas já faz algum tempo que ele arriscou a carreira-solo, sempre com uma interpretação impecável para os compositores que se propõe a visitar.
Em ''Batuque'', por exemplo, ele retoma pérolas como ''Tico-Tico no Fubá'' (de Zequinha de Abreu e Eurico Barreiros);''O Que É Que a Baiana Tem?''; ''Vatapá'' (Dorival Caymmi) e ''Adeus Batucada'' (Synval Silva). No show entram ainda ''Maria Boa'' (Assis Valente) e músicas que ficaram de fora do disco, como ''Roxá'' (autor desconhecido) e ''Batuque na Cozinha'' (João da Baiana), que ele promete para o espetáculo de hoje.
Na sua segunda visita com ''Batuque'' em Curitiba, Ney Matogrosso aproveita para revelar a sua impressão sobre a Capital. ''A cidade mudou muito, lembro das ruas tranquilas e vazias durante a noite'', conta. Ele recorda que a primeira vez que se apresentou na cidade, chegou a ficar inseguro. ''Achei que ninguém estava gostando, ficava aquele silêncio na platéia... mas quando acabei o público me aplaudiu de pé durante um bom tempo... que alívio.''
Mas Ney concorda que esse tempo de público recluso é coisa do passado. Da última vez que esteve em Curitiba, no ano passado, diversas vezes teve que dar um espaço maior do que o esperado entre as suas músicas para ouvir (e acalmar) os gritos lançados da platéia. Aos 61 anos, a desenvoltura de Ney no palco é praticamente a mesma ao longo dessas mais de três décadas de carreira.
Mas se em ''Batuque'' ele consolida essa imagem, em ''Ousa Ser'', tributo a Cartola, Ney se desvencilha dela, se mostrando bem mais contido '''Batuque' é mais expansivo, Ousa Ser é exatamente o contrário'', define. A escolha das 12 músicas que compõe o disco foi rápida, conforme revela Ney. Em cerca de uma semana, tudo estava pronto para tentar acompanhar o lançamento do livro que não aconteceu. O disco traz clássicos como ''As Rosas Não Falam'', ''Cordas de Aço'', ''Acontece'', ''Peito Vazio'' e ''O Sol Nascerá''.
''Foi mais difícil interpretar o Cartola, é um exercício bem diferente de 'Batuque''', diz Ney. Para ele, as músicas exigem muito. ''Tive que mostrar o domínio da minha voz''. Mas além do mérito da interpretação, ''Ousa Ser'' mostra uma outra face do intérprete, a de empreendedor cultural. Ele se empenhou para ver nascer o livro homônimo, cujo projeto antecedeu o disco. A obra reúne fotos do cantor desde o início da carreira até cerca de uma década atrás.
São fotografias de Luiz Fernando Fonseca, fotógrafo oficial de Ney que durante a maior parte da sua carreira registrou desde fotos para capas de disco a bastidores de show. Depois da morte do fotógrafo, em 1990, Ney sentiu na pele as dificuldades da produção cultural no Brasil e penou para conseguir patrocínio para a impressão colorida. A empreitada ganhou apoio do escritor e artista plástico Bené Fonteles e (finalmente) saiu para o papel no início deste ano, com apoio da Imprensa Oficial e do Sesc São Paulo. ''Agora o livro caminha sozinho'', conta o músico.
Para Ney, a trajetória de sua carreira parte dela mostrada no livro tem um balanço ''coerente''. ''Eu peguei um caminho complicado, passsei por seis gravadoras, mas sempre lutei pelo meu trabalho e aquilo que acredito'', avalia o cantor. Mas ele não pretende encerrar esse percurso tão cedo. Revela que há ainda muito a fazer. ''Quero fazer teatro ou cinema. Quero trabalhar como ator'', confessa.
Enquanto o sonho não se consolida, Ney prepara um disco com músicas inéditas de Cazuza a ser lançado no ano que vem. Algumas letras já foram musicadas, outras ainda estão no forno. '''Mas está acontecendo e o trabalho vai ficar ótimo'', promete. É esperar mais essa empreitada.
Serviço:
''Batuque'' show com Ney Matogrosso. Hoje, às 19 horas, no Teatro Guaíra, em Curitiba. Ingressos a R$ 45,00 (platéia), R$ 35,00 (1º balcão) e R$ 25,00 (2º balcão).


