São Paulo, 26 (AE) - Nos últimos anos, vários atores do teatro brasileiros vêm registrando em livro depoimentos sobre suas carreiras, uma ótima iniciativa para historiar uma arte efêmera, cuja memória costuma ficar restrita à dramaturgia. Alguns desses livros como "Vida e Arte, Memória de Lélia Abramo", editado pela Fundação Perseu Abramo, ou "Miriam Muniz
o Percurso de uma Atriz", com depoimentos colhidos por Maria Thereza Vargas, editado pela Hucitec, ultrapassam a história pessoal das atrizes e acabam por traçar um panorama muito amplo da atividade teatral em seu tempo. Outros, como "Mare Nostrum, Sonhos, Viagens e Outros Caminhos", de Fauzi Arap, editado pela Senac, optam por um viés mais pessoal, mas ainda assim revelam o espírito de uma época.
Enquadra-se nesse caminho pessoal o livro "Ney Latorraca em muito além do Script", uma edição das 24 fitas de depoimentos do ator colhidos pela jornalista Lucia Rito. Com uma variada galeria de fotos, desde imagens de infância até registros de uma trajetória artística de 35 anos - 22 peças, 19 filmes, 15 novelas, 6 minisséries -, o livro será lançado amanhã (27) na sede do Jockey Club, no Rio. Centrada em sua história pessoal, a biografia de Latorraca pode não interessar, como as outras, aos pesquisadores do teatro brasileiro, mas certamente vai agradar aos fãs, sempre sequiosos de privar da intimidade de seus ídolos.
Bom narrador, conta, entre outras coisas, sua infância pobre e a difícil relação com o pai, um homem bonito e sedutor, porém um artista fracassado, que chegou a cantar no Cassino da Urca e teve um programa na extinta TV Tupi. "Não me olhava como um filho, mas como um concorrente, e sempre que podia me dizia para desistir de meus planos, que nada ia dar certo em minha vida", conta o ator, que ironicamente seria citado em duas edições do Guiness Book. A citação deve-se ao seu sucesso no papel de lord Edgar em "Irma Vap": em cartaz por 11 anos, foi vista por 2,5 milhões de pessoas e bateu o recorde como a peça que ficou em cartaz mais tempo com o mesmo elenco.
As previsões do pai que surrava a mulher e o filho não se realizaram, mas marcaram o ator. "O sucesso profissional e financeiro proporcionado por "Irma Vap" não foi capaz de apagar as lembranças que Ney Latorraca traz de uma infância marcada pela pobreza, surras constantes, brigas entre os pais e uma breve passagem pela delinquência", escreve Lucia. Além de roubar frutas e verduras na feira, que a família pobre aceitava sem perguntas, Latorraca chegou mesmo a roubar dinheiro. "Eu ficava observando as pessoas que levavam tiras de pagamento da conta de luz na mão e o dinheiro contado para pagar, principalmente as mais velhas", conta. "Quando percebia alguém mais distraído, ia lá, puxava o dinheiro e saía correndo".
A narrativa que se segue à infância é a história de um homem talentoso, porém, antes de mais nada, determinado a vencer. Serviço - "Ney Latorraca em muito além do Script". De Lucia Rito. 223 págs. R$ 25,00. Ed. Globo. Amanhã, às 19 horas, na Livraria Espaço em Movimento. Rua Mário Ribeiro, 410, Rio; dia 2
às 19 horas, Livraria Cultura. Avenida Paulista, 2.073, São Paulo

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