Ney Fialkow toca no Ouro Verde
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quinta-feira, 10 de julho de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Os alunos da oficina de piano erudito, ministrada por Ney Fialkow no 23º Festival de Música de Londrina, talvez não percebam. Mas o professor e concertista não esconde a formação de médico que ostenta com orgulho.
''Quando ganhei uma bolsa para estudar piano no exterior, tive que decidir entre a música e a medicina'' conta. ''Por respeito à medicina, não quis conduzir as duas carreiras. Mesmo assim, acredito que mantive algumas de suas características como a solução de certos problemas, a abordagem na relação professor-aluno e o traço humanista do exercício médico''.
Fialkow se apresenta hoje no Cine-Teatro Ouro Verde. É a primeira vez que participa do Festival. É a segunda visita a Londrina, onde esteve em abril desse ano tocando ao lado do violinista carioca Michel Bessler como convidado do projeto ''Concertos Matinais''. Para o recital de logo mais, pinçou algumas obras do repertório brasileiro para piano, entre as quais ''Sonata n. 2'', de Edino Krieger; ''Choro n. 5 Alma Brasileira'', de Villa-Lobos''; e ''Quase Noturno'', de Armando Albuquerque.
Do acervo de Camargo Guarnieri garimpou quatro peças: ''Ponteios 30, 24, 21''; ''Sonatina n. 2''; ''Valsa n. 8'' e ''Ponteios 47, 41 e 49''. Sobre este compositor, comenta que ele talvez seja o autor mais importante da tradição pianística. ''É um de nossos pilares. Minha tese de doutorado foi dedicada à sua obra'' lembra. O referido título foi obtido no Peabody Conservatory da Johns Hopkins University, em Baltimore, onde foi assistente da célebre pianista Ann Schein, discípula de Artur Rubinstein.
Nesta instituição foi agraciado com o premio Frances Turner por destaque em performance de piano. Antes, cursou Mestrado em Piano com distinção no New England Conservatory Boston, com Patricia Zander. A temporada no exterior durou de 1989 a 1995. De volta ao Brasil, tem conciliado movimentada carreira de solista e camerista com a atividade de professor e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Música do Instituto de Artes da UFRGS.
Nos palcos, tem atuado em recitais com instrumentistas de renome nacional e internacional tais como o violinista Cármelo de los Santos, o violoncelista Antonio del Claro, o violista Csaba Erdely (Hungria) e o violinista Cláudio Cruz. Convidado frequente como jurado de importantes concursos de piano no país e para ministrar cursos de interpretação pianística, apresentou uma série de recitais e masterclasses na França a convite de diversos Conservatórios de Música daquele país.
Na entrevista, ele observa que o piano andou com o prestígio em baixa nas últimas décadas. ''Houve um desestímulo ao instrumento'' argumenta. ''Começaram a dizer que havia muitos pianistas no país e que era preciso investir na formação de músicos para outros instrumentos. Difundiu-se a idéia de que já havia uma tradição estabelecida que não precisava mais ser cultivada. Era como se dissessem: não precisa mais investir em futebol, vamos investir em tênis, golfe e outros esportes. O resultado é que os grandes concertistas passaram se sentir carência de novos pianistas de talento, reclamando que não tinham com quem tocar''.
Apesar da extensa rodagem pelos palcos, Fialkow frequentou pouco os estúdios de gravação. Entres seus registros sonoros em discos constam gravações de obras de Flávio Oliveira, Luciano Zanatta e Bruno Kiefer deste, a peça ''Diálogo para Piano e Orquestra'', gravado com Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Para este ano, pretende lançar um CD com repertório brasileiro para piano e violino em parceria com Carmelo de los Santos.
Entre as composições já escolhidas figuram peças de Villa-Lobos, Francisco Mignone, Cláudio Santoro e, claro, Camargo Guarnieri. ''Estou com o magnífico Arnaldo Cohen, que depois de uma brilhante carreira só agora começa a lançar CDs. Acho que este é também o meu caminho. Acredito que um CD deva refletir um cume e sintetizar a maturidade do artista e não vulgarizar a música como ocorre hoje em dia''.


