Rio - "Quando não está filmando, todo cineasta está sonhando em filmar." Neville D’Almeida, 71 anos, dono da terceira maior bilheteria da história do cinema brasileiro - "A Dama do Lotação", de 1978, teve 6,5 milhões de pagantes -, é quem diz. Desde "Navalha na Carne" (1997), ele não lança um longa no circuito comercial. Mas não deixou de sonhar. Tampouco de filmar.
Além de se dedicar à divulgação de sua obra experimental, desenvolvida 40 anos atrás em parceria com Hélio Oiticica (1937-1980), e que vive uma fase de descoberta em festivais de cinema, mostras e feiras de artes plásticas pelo mundo (Berlim, Frankfurt, Londres, Rio), Neville tem "uns 150" filmes digitais de curtíssima duração por editar.
Essas micro-metragens compõem um projeto que ele chama de Neville Sem Lei - em nenhum deles foi usado dinheiro de leis de incentivo. Este ano ainda, se tudo andar conforme planeja, esse enredo vai mudar. Em 2012, Neville teve aprovado R$ 1 milhão do Fundo Setorial do Audiovisual para rodar "A Frente Fria Que a Chuva Traz", baseado na peça de mesmo nome de Mário Bortolotto.
O cineasta outrora maldito espera a resposta da Agência Nacional de Cinema para o pedido de redimensionamento do orçamento do filme (de R$ 3 milhões para R$ 1 milhão, já que a captação não foi além) para dar início à pré-produção. "Eu tentei financiamento algumas vezes, mas nunca conseguia", conta Neville, que tem o roteiro já pronto há alguns anos.
"A gente vive um momento maravilhoso no cinema brasileiro em que todo mundo consegue fazer seu filme. Não sei por que eu não. Depois do sucesso todo que eu fiz, existem injustiças. O Gustavo Dahl morreu querendo fazer filme sem conseguir, o Rogério Sganzerla, o Paulo César Saraceni. Todo cineasta tem vários projetos na gaveta. Já estou pensando na adaptação do meu livro A Dama da Internet para o cinema."
A produção de "A Frente Fria" está a cargo de Homero Camargo, com quem ele já havia trabalhado em "Navalha", e Marcello Maia, com larga experiência em baixo orçamento com Julio Bressane, Cláudio Assis, Walter Carvalho e Sandra Kogut, e que trabalhou também em "Faroeste Caboclo", de René Sampaio (seu primeiro filme com verba mais robusta).
O set deve estar de pé nos próximos meses. A ideia é filmar em quatro semanas, numa locação só: o Morro do Vidigal, na zona sul do Rio, onde, há sete anos, foi montado, com direção de Caco Ciocler, o texto de Bortolotto. Neville assistiu à peça e ficou impressionado com a tessitura das relações entre Alisson, Fabi, Lili, Cristy, Bia e Espeto, jovens de classe alta que alugam a laje de um barraco na favela para fazer festas no estilo sexo, álcool e drogas à vontade. Os playboys "brincam de favelados", mas sem interagir com a realidade do morro.
Gru é o morador que faz o negócio. Vitor é o segurança que isola a área para proteger os mauricinhos do entorno. "A Frente Fria" não terá o clima e as cores de "favela movie" - esqueça as armas e as perseguições policiais de "Tropa de Elite" e pense em "Rio Babilônia", o filme de Neville de 1982 que misturava high society e favela sob uma nuvem de cocaína. "Eu já filmei Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, e considero o Bortolotto um dos grandes dramaturgos latino-americanos da nossa época."

'Encher de cinema'
As apresentações foram feitas por Homero Camargo, do Paraná de Bortolotto. As duas poéticas se reconheceram de imediato. "Gosto muito de Rio Babilônia. Acho que é um grande filme. Eu vi com 20 anos e fiquei chapado. Quando conheci o Neville, gostei muito dele, nos tornamos amigos", lembra Bortolotto, que aprovou o roteiro desenvolvido para o filme.
"Os meus textos, apesar da origem teatral, são muito cinematográficos. Eu entendo que uma adaptação cinematográfica reivindique uma geografia mais ampla além das quatro paredes. O que eu não entendo é quando um roteirista resolve adaptar e mexe nos diálogos da peça. Neville falou: 'Eu não preciso mexer no texto de teatro. A minha função apenas é encher de cinema'. Quando ele falou isso, fiquei com uma expectativa boa. A minha experiência com 'Nossa Vida Não Cabe num Opala', que é a adaptação do meu texto Nossa 'Vida Não Vale um Chevrolet', foi muito desagradável. Virou uma novela mexicana muito ruim."

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