"Neve sobre os Cedros", indicado ao Oscar de fotografia, também estréia amanhã16/Mar, 15:29 Por Luiz Carlos Merten São Paulo, 16 (AE) - O drama dos americanos de origem japonesa que foram tratados como inimigos da pátria durante a 2.ª Guerra Mundial já rendeu um filme com todos os defeitos do estilo publicitário do diretor Alan Parker - "Bem-Vindos ao Paraíso". Ainda não foi dessa vez que o tema ganhou tratamento nobre, ou pelo menos adequado, no cinema. "Neve sobre os Cedros" está indicado para o Oscar de fotografia. É uma decepção. A rigor não se pode falar em decepção porque se houve um diretor supervalorizado, nos últimos anos, foi Scott Hicks. "Shine - Brilhante" pode ter consagrado o cineasta (e o ator Geoffrey Rush), mas certamente não valia metade de sua reputação. Hicks volta agora com outro drama lindamente fotografado. O que deveria ser uma qualidade vira defeito. Na ânsia de obter belos efeitos fotográficos, o diretor descuida da dramaturgia e atravanca seu relato com ângulos rebuscados, imagens colhidas por meio de vidros deformantes, recortes dentro dos planos. Um porre visual. Esse é um problema e não se pode dizer que seja pequeno. Outro está no elenco, que, se por um lado, tem Sam Shepard e o bergmaniano Max Von Sydow, de outro traz o inexpressivo Ethan Hawke, sempre fraco na hora de transmitir emoções. "Neve sobre os Cedros" trata das relações entre americanos e japoneses numa cidadezinha litorânea dos Estados Unidos, nos anos 40. Segue a vertente dos filmes sobre julgamentos. Logo no começo, o corpo de um homem é encontrado no mar. O que a princípio parece acidente vira suspeita de assassinato. Um japonês é levado a julgamento. O caso expõe o preconceito contra os amarelos, da mesma maneira que outro filme sobre julgamento que estréia amanhã, "Hurricane - O Furacão", trata da discriminação contra os negros. O suposto assassino é hostilizado pelo promotor, que nem liga para o fato de ele se haver apresentado como voluntário para lutar na guerra, com direito a condecorações e tudo. O discurso do advogado beira a irracionalidade. Destila ódio. Contra ele, o advogado de defesa (Max Von Sydow) faz um discurso baseado na tolerância e no respeito. É um belo discurso e o filme até melhora um pouco no desfecho, mas também parece uma fala estudada para o Oscar - como o discurso sobre o americanismo de Anthony Hopkins em "Amistad", de Steven Spielberg. Existe essa trama criminal, mas a ela se superpõe o romance. "Neve sobre os Cedros" narra a história de amor do personagem de Ethan Hawke com Youki Kudoh. Crianças, ele a persegue na praia, rolam na areia e terminam fazendo suas primeiras descobertas sobre o sexo no cedro que dá título ao filme. São separados quando ela é enviada com a família para um campo de prisioneiros. Lá, a garota conhece outro homem, com quem se casa. É o japonês acusado de crime. Motivos até que não faltam para a suspeita e a acusação, agravadas ambas pelo preconceito. Ele e a vítima foram amigos de infância, mas ultimamente estavam em litígio por um caso de disputa de terras. Hawke amarga a dor da separação. Também tem problemas para aceitar-se como filho do jornalista criado por Sam Shepard. No fim, as investigações de Hawke dão novo rumo ao processo e ele se revela um homem digno, na melhor tradição da herança paterna. Tudo politicamente correto e carregado de boas intenções, mas o diretor Hicks errou na concepção, ao transformar essa história de amor e preconceito em pretexto para um rebuscado exercício fotográfico. Em vez de fascinar, como um bom filme, "Neve sobre os Cedros" aborrece com sua narrativa que se arrasta (e dispersa) nos efeitos visuais.

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