São Paulo, 26 (AE) - "A Bíblia", Shakespeare, Montaigne, Plutarco, Cervantes. É comum encontrar literatura de grande porte em bibliotecas de estudantes de letras, direito e história. Nas de estudantes de medicina, porém, nem sempre. Principalmente hoje, quando a medicina tem-se tornado uma ciência cada vez mais mecânica, em que pacientes são tratados como números, submetidos a exames computadorizados, que muitas vezes são enviados por fax ou e-mail a médicos mais preocupados com suas contas bancárias do que com a complexidade humana de seus pacientes.
Para jogar a luz do humanismo sobre a medicina, o neurocirurgião Raul Marino Jr. está lançando o livro "Osler - O Moderno Hipócrates", uma biografia do canadense William Osler (1849-1919), médico que, não bastasse ter descoberto as plaquetas em 1874, insistia que os médicos devessem ser cultos e bem letrados. O livro será lançado no dia 17, na Associação Paulista de Medicina.
"Sua grande contribuição foi ter concebido a tríade ciência, arte e humanismo na medicina", explica o biógrafo. A obra é dirigida principalmente aos estudantes de medicina. "É o livro de cabeceira que eu queria ter quando estudante e não tive", comenta Marino.
Filho de pastor protestante inglês imigrante no Canadá, Osler desde cedo se mostrou propenso a seguir a carreira do pai. Percebeu, porém, que sua missão, mais que a de pregar, era a de intervir diretamente na vida humana - curando. Osler poderia ter sido o maior clínico do Canadá, mas acabou se tornando o maior mestre de medicina de seu tempo, ensinando centenas de médicos a tratar e curar doentes cientificamente. "Observava, experimentava, autopsiava; vivia no hospital e ensinava, ia às sociedades (médicas) e escrevia, além de possuir vasta e profunda cultura, tanto humanística como filosófica", diz o autor. "Foi, acima de tudo, um educador."
Em 1867, já cursava a Trinity University de Toronto, onde, por meio da química e da fisiologia, descobriu a medicina. Passou a cursar a Toronto School of Medicine, que abandonou em 1870 para dirigir-se à McGill University de Montreal, a melhor do Canadá, na qual se formou em 1872. Foi a Londres, Berlim e Viena e, em 1874, retornou a Montreal. Tinha apenas 23 anos e era chamado de baby professor. Conciliava a prática e a teoria, defendendo a máxima: "Estudar as doenças sem livros é navegar em mar alto, mas estudar nos livros sem ver os doentes é ficar ancorado no porto."
A vida e o trabalho de Osler são pouquíssimos conhecidos no Brasil, o que faz o livro ser interessante até para leigos. A biografia, escrita de forma clara e direta, traz a biblioteca que Osler recomendava a seus alunos: além da Bíblia, das obras de Shakespeare, Cervantes, Montaigne e Plutarco, eram essenciais de Marco Aurélio (Meditações), Epicteto, Thomas Browne (Religio Medici), de Emerson (Obras) e Oliver Wendell Holmes (The Breakfast Table Series) .
Quem sabe com elas seja possível colocar em prática a frase escrita pelo professor emérito da Faculdade de Medicina de São Paulo, Carlos da Silva Lacaz, no prefácio do livro: "As conquistas tecnológicas não devem afogar o espírito de solidariedade humana."

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