Neto de Cândido de Faria está no Brasil para a exposição15/Mar, 17:25 Por Silvia Herrera São Paulo, 15 (AE) - Um francês de coração brasileiro, assim é Felipe Aragonez de Faria, 71 anos, único neto do pai das artes gráficas do Brasil, Cândido de Faria, que revolucionou a maneira de ilustrar os jornais no século 19 e criou os primeiros cartazes para o cinema. Felipe Faria veio ao Brasil trazer uma preciosa exposição de cartazes de seu avô, que inaugurou a galeria virtual do site da Agência Estado e poderá ser visitada a partir de hoje, no Museu de Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. Ainda este ano, a exposição poderá seguir para o Rio de Janeiro, Aracaju e Porto Alegre. "São cartazes de circo, café concerto, operetas e filmes, entre eles o do primeiro longa-metragem francês, nunca expostos no Brasil", salienta. Esta exposição foi apresentada na Galeria Debret, em Paris, no ano passado, em um evento que marcou o aniversário de 150 anos do artista. Cândido nasceu em Laranjeiras, Sergipe, no dia 12 de agosto de 1849, filho de um médico que teria fundado um hospital em Aracaju. Teve vários jornais satíricos no Brasil e na Argentina, e no final do século 19 mudou-se para França, onde criou os primeiros cartazes para a nova arte que surgia o cinema. Pianista e fiscal nuclear aposentado, Felipe tem duas filhas, Isabel (26 anos) e Inês (25 anos). A mais nova começa a trilhar os passos do bisavô e também do avô, Jacques, que assumiu o atelier Faria, desde a morte de Cândido. "O atelier fechou em 1956, quando meu pai morreu", conta. Um confesso apaixonado pelas artes, há anos Felipe Faria vem colecionando os cartazes, comprando-os em leilões e pesquisando a história da vida do seu ousado avô, o precursor dos quadrinhos, o mestre da litogravura, das ilustrações gráficas e dos cartazes. "Tenho histórias para escrever vários livros". Nesta entrevista à Agência Estado, Felipe conta que entregou seus originais do livro da vida de seu avô para a Biblioteca Mário de Andrade (SP), mas que até agora não apareceu nenhuma editora interessada e que por motivos financeiros acabou desistindo de fundar o museu Faria. "Renunciei a esta idéia há alguns anos". Agência Estado Quais são os cartazes de destaque desta exposição? Felipe Aragonez de Faria Poderia dizer "L'Assommoir", do primeiro longa; "Cleópatra", que foi exibido em Paris há dois anos numa grande exposição sobre Alexandria; e "A Infância de Jesus", que faz parte de uma série muito importante da companhia de cinema de Parths. AE Quantos cartazes o senhor tem de Cândido em sua coleção particular? Faria Uns 50, mas também tenho muitos de meu pai, inclusive o do filme " Frankenstein", que por ser o primeiro filme Boris Karloff vale em torno de 150 mil francos. AE Esta é a primeira exposição de Faria no Brasil? Faria Não, a primeira foi nos anos 50 por iniciativa da secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul. Certo dia fui visitar uma biblioteca na embaixada brasileira da França e encontrei o "Dicionário dos Artistas Gráficos do Brasil", três volumes. Num deles havia duas colunas sobre o Faria; poderia dizer que continha uma biografia muito incompleta, mas menciona esta exposição. AE Qual é o cartaz mais famoso do seu avô? Faria É o "A la Conquete du Pole" (A Conquista do Pólo). Trata-se de um cartaz de proporções pequenas feito em 1912. O Cândido morreu em 1911. Bom, eu pensava que um cartaz com a assinatura Faria era do Cândido, mas os especialistas franceses em cartazes de cinema me convenceram que não poderia ser este um cartaz de Cândido porque o prazo para fazer um cartaz para cinema era muito curto. Este filme estreou em maio de 1912, era um filme Georges Mlies, que fazia muitos efeitos especiais no teatro e começou a faze-los também no cinema. Foi ele quem inventou os primeiros truques para cinema. Só conhecemos um cartaz dos filmes de Mlies por isso ele tem um valor extraordinário. Há cinco anos, o último lance por ele no leilão foi de 200 mil francos. Não conhecemos qualquer outro cartaz que tenha chegado a este valor. E não é um cartaz de Cândido, mas sim de meu pai, que assinava Faria também. Ele adotou a maneira de assinar de Cândido porque nesta época era importante criar um logotipo para os cartazes. E esta assinatura era muito reconhecida, e meu pai assinou como Cândido durante 20 anos, depois começou a assinar Jacques Faria, seu nome. Mais tarde começou a pintar. AE Isso não pode criar confusões quanto a autoria? Faria Sim, pode causar muitas. E nesta quarta (hoje), farei uma palestra no MIS sobre este assunto. No caso do meu pai, temos de conferir a data dos filmes. Mas, mesmo assim, alguns cartazes anteriores a 1911 também podem ser do meu pai, já que ele usava a mesma assinatura do Cândido. AE Há algum livro sobre Faria? Faria Não, até hoje não. E na França é muito difícil descobrir algo sobre ele. Alguns historiadores dizem que seu atelier era como os outros que contratavam anônimos, outros, que ele tinha uma editora de cartazes, e outros, uma gráfica e até uma empresa de colar os cartazes nas ruas. Quando na verdade ele era um artista, que tinha um atelier onde faziam um pouquinho de tudo. AE O senhor não pensa em escrever um livro contando a história de seu avô e do seu pai? Faria Claro. Já até escrevi e doei há dois anos à Biblioteca Mário de Andrade. O livro não tem editor, eu escrevi no computador baseado nas minhas notas de pesquisas. Tomara que um dia alguma editora se interesse em publicá-lo. Também renunciei a idéia de criar um museu, não tenho condições financeiras. AE Seu avô aprontou mil e uma com suas caricaturas durante o tempo que morou no Brasil, nas quais ironizava o clero, os governantes, os militares. Faria Como todos os outros caricaturistas, ele atacava principalmente o clero. Isso ele fez também nos três anos em que morou na Argentina. Já na França não. A meu ver, lá ele perdeu sua independência. Ele recebia encomendas para ilustrar livros, partituras e depois cartazes para espetáculos, e enfim, para o cinema. AE Não era como no Brasil, onde ele era o dono de seu jornal satírico e fazia o que bem entendesse. Faria Isso mesmo. Aqui ele tinha muita independência. Não só ele, como também o Agostini e outros, que foram lançando seus próprios jornais. Cândido foi proprietário do "Mosquito" e vários outras publicações. AE Será que os políticos daquela época podiam exercem algum tipo de censura contra os caricaturistas? Faria Não, não tinha problema nenhum. O próprio Imperador Dom Pedro II gostava muito delas. AE Mas não existiu uma briga com o Duque de Caxias? Faria Sim. Foi em 1876, se não me engano, quando ele publicou em página dupla uma cena de um espetáculo circense na rua, e representou o Duque de Caxias como um macaco. AE Por causa disso o Duque de Caxias teria expulsado Cândido do Brasil? Faria Não, nada disso. Não foi nem ele quem criticou esta famosa caricatura de Cândido, mas sim um jornal do Rio de Janeiro, que publicou uma crítica escrita por seu diretor, chamado Menezes, que escreveu que "era lamentável fazer tais desenhos", e dizendo que a autoria dele era de outros artistas. Por que Menezes disse isso? Porque os outros artistas citados eram estrangeiros e não era bem vistos no Rio, e foi uma maneira desse jornal ajudar a que eles fossem embora. AE Mas por que Cândido mudou-se para a Argentina? Faria Ele foi porque quis. Antes ainda passou um ano em Porto Alegre, onde fez a melhor parte de seu trabalho. Ele estava no auge da carreira e abriu seu primeiro atelier. AE Então o "Figaro", jornal satírico que Cândido abriu em Porto Alegre, foi o melhor de sua carreira? Faria Em Porto Alegre ele atingiu o ponto mais alto de sua arte era como um mestre. A questão e saber porque ele morou um ano lá? Eu acho que ele queria mudar-se para a Argentina, mas o navio poderia ter feito uma escala lá. Ele acabou gostando da cidade, por que não? Quando ele saiu definitivamente do Brasil ninguém sabia o motivo. Há uns anos, em Paris, descobri um livrinho sobre meu avô em um sebo, com biografia, fotografias, algumas partituras ilustradas por ele, publicado na época em que chegou à França. Ele chegou em 1882, e o livro era de 1886. O que prova que ele já era famoso em Paris. Nesta biografia há que ele passou três anos na Argentina colaborando em grandes jornais como no " La Cotorra" e " El Grafico". Assim tomei a decisão de pesquisar em Buenos Aires, nas bibliotecas e pude conferir tudo isso. E vamos apresentar no MIS fotos deste período, o que muita gente no Brasil e na própria Argentina ignora. AE Há desse período uma caricatura que mostra uma vaca de ouro na qual alguns políticos estão mamando em suas tetas. Faria São os ministros e o Presidente da República. Há poucos anos, fizeram uma exposição na Argentina, eu não estava lá, com este jornal e muitos outros, que se chamava "A caricatura, uma maneira de aprender nossa história". Tinha uns desenhos do Faria e outros artistas, mas não havia nenhuma informação sobre os artistas. AE Quantas cópias eram feitas dos cartazes do cinema? Faria - Eram feitas de 2 a 3 mil cópias para cada filme e para isso, meu avô se associava a outras empresas. Ele criava as obras em seu atelier e os prensava em outras companhias, já que era impossível para ele manter maquinas pesadas de mais de 7 toneladas e muito grandes também num apartamento de 70 metros quadrados. Naquela época, estas companhias contratavam artistas anônimos para fazer seus cartazes que eram assinados com os nomes dessas companhias. No atelier Faria era diferente, os artistas que trabalhavam com meu avô assinavam seus nomes no cartaz, que recebia também a impressão com o nome do atelier Faria e o endereço. AE - Esta exposição traz 28 cartazes de seu avô, mas entre eles não está aquele criado para o filme "Vítimas do Alcoolismo", o primeiro curta a ser exibido no mundo. Por que? Faria - Infelizmente não temos este cartaz. Este filme trata sobre um tema muito em voga naquela época, começo do século 20, antes da primeira guerra, quando os franceses tomavam muito absinto e acabavam se tornando alcoólatras. Temos de esperar que este cartaz um dia apareça em algum leilão. Seria muito interessante poder adquirí-lo. Este foi o primeiro de uma longa série de cartazes exclusivos para a companhia de cinema de Path.

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