Neo-Ali Babás tiram leite de vaca morta
Arquivo FolhaO escândalo dos precatórios é uma aula de Brasil moderno. Estamos evoluindo em matéria de corrupção. Enquanto a corrupa do PC-Collor-Anões era rural, cordial, clientelista, esta é urbana, tecnológica, complexa como a clonagem de ovelhas. Descobrimos que o Estado (estados) é o pai dos empresários mesmo quando está falido. Falência também dá lucro, aprendemos. A linha genética desta clonagem é assim: os alquimistas financeiros chegam aos Estados falidos e propõem transformar nada em milhões de dólares, merda em ouro. Conseguem. Esta CPI dos precatórios nos revela como se tira leite de vaca morta. Nos precatórios não há ladrões; há técnicos. Não há mão grande, não há o momento da bruta flor do assalto, como houve até no caso do grande PC, nosso mestre eterno. Há mãos pequenas, unhas polidas, um raro prazer....Há neste crime uma reengenharia do roubo. Uma terceirização da esperteza em cadeia. Ninguém é culpado sozinho, não há o torpe indivíduo sobre o qual pesam a pecha e a vergonha. Aqui a culpa dilui-se numa linha de interfaces conectadas. Neste crime não há réus, todos são cúmplices. Não há Ali Babá; só os 40 ladrões. É nossa versão das pirâmides da Albânia. A culpa de tudo é o fim da inflação, que atiçou a criatividade dos seus parasitas que, sem over , sem float , sem bicicletas cambiais, tiveram que virar picaretas virtuais. No mundo dos precatórios, todos são laranjas.
Esta é sua modernidade: um absolve o outro. Claro que terão de arranjar um bode expiatório. Quem será? O pobre zarolho Wagner Batista Ramos? É possível. É o mais feio, o classe média, com um só rim. Os precatórios lembram os assassinatos rituais aztecas, onde todos dão uma facada na vítima e ninguém matou.
Os precatórios nos ensinam que a culpa da merda brasileira se dilui horizontalmente no anonimato dos segundos escalões. É um roubo democrático, quase uma distribuição de renda. E um roubo anti-messiânico, não inclui a figura do Pai-presidente, é um roubo entre irmãos. Vai da burguesia dirigente do nordeste e sul, passa por técnicos de classe média e chega a proletários-laranjas trêmulos na CPI, diante de senadores eufóricos de inesperada honradez. Os precatórios formam uma gangue trans-ideológica, nem de direita nem de esquerda, com todos os matizes políticos, desde o corretor yuppie sem partido até o último brilho do populismo janguista nos olhos verdes do Dudu Beleza, neto de Arrais. Os precatórios são o arco da nossa sociedade.
Bilhões e milhões No Exterior, a corrupção é o troco, a comissão que sobra. Aqui, é o principal. Alemão e japonês não roubam bilhões de dólares. Isto é uma coisa nossa como o samba e outras bossas. Um dia desses, um dos corruptos aconselhou o outro, mais jovem e imprudente: Sossega leão, você fala em bilhões como se estivesse falando apenas de milhões! Com os precatórios vemos que somos pré-capitalistas. Ninguém rouba para investir, como os americanos. Ninguém investe o butim em atividades produtivas. Rouba-se para guardar, à portuguesa. Não há ética protestante, nem a tradição calvinista nos roubos brasileiros. Os precatórios têm uma nova moralidade, uma moderna razão cínica. Há algo de revolucionário em suas caras-de-pau, em seus brancos colarinhos impecáveis, há uma frieza de homens superiores diante da culpa. Não há vergonha; só orgulho de eficiência. Roubei? Que importa? Importa que sou um gênio administrativo! Perto deles, nossos clamores moralistas ficam antigos. Ninguém esconde a cabeça em fraldas de camisa, como os ladrões de galinha. Os precatórios posam para fotos coloridas, sorrindo com uma luz de orgulho. Dizem os outros, com inveja: Fulano é espada! Sicrano é craque!.
Papel da Justiça Nossos Ali-Babás confiam na Justiça. Sua coragem é igual à paralisia do Judiciário. Este é o papel da Justiça: garantir que os precatórios jamais irão em cana. Eles são especialistas no labirinto financeiro que é protegido pelo labirinto das leis. A roubalheira moderna tem a complexidade da nova genética. Só experts entram. Os escândalos pós-modernos só servem para extasiar a nós, os leigos.
Os precatórios são artistas modernos. Fazem roubos abertos, como instalações. Em suas obras não há princípio, nem meio e, certamente, não haverá fim. Neste escândalo, o fim está no início. Quando o primeiro corretor pensou no plano, já estava prevista a re-compra dos títulos pelos fundos de pensão das estatais. Não há micos. São cobras mordendo o rabo. Nossos precatórios são filósofos relativistas e pragmáticos. São prenúncios do século 21.
Os picarecatórios provocam CPIs, que nos ilustram sobre a vida política e são também úteis para lavar fichas e folhas corridas.
Como os sabões em pó, as CPIs lavam mais branco. Reciclam políticos. Uns se limpam nos outros e assim podem almejar cargos futuros.
Kit-Luxo Para nossos precatórios, ser feliz é ostentar. Não lhes interessa a contemplação elegante da beleza da vida, nem a serenidade aristocrática. Sua felicidade está mais para a imitação carnavalesca de Luis 14.
Os precatórios amam os kits típicos dos novos-ricos: Kit nº 1 : mansão, lancha e jatinho. Kit nº 2 : amante, vinhos, haras. Kit nº 3 : pólo, ilhas e gargalhadas em Paris. Kit nº 4 : arte, respeitabilidade, poder político e, um dia, medalhão, mausoléu com anjo chorando e nome de rua. Nossos neo-ricos são também polivalentes.
Pilotam learjets , cuidam dos colarinhos ingleses, gravatas Kenzo, fazem churrascos, comem sushis, comem todo mundo, loteiam praias, industrializam sêmen de boi. Como conseguem tempo para tantas coisas? Onde tramam os golpes/ Nos motéis com as louras do tchan? Nos galopes de pólo do Helvitia? Ou desarrolhando as garrafas de Petrus? Suas vidas são um triatlon chic e nos dão vontade de apurar mais sobre eles, não para descobrir responsabilidades, mas para conhecer suas vidas. Como serão suas noites, suas amantes. Devem ser puro-sangues, belas como os cavalos de seus haras. Há um forte halo sexual nestes heróis cínicos. Exalam um clima de luxo fabuloso. Nossos corruptos nos matam de inveja.





