"Nenhum a Menos", vencedor do Festival de Vezena, estréia amanhã
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quinta-feira, 27 de janeiro de 2000
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 27 (AE) - Um filme chinês de alma iraniana. Dessa mistura estranha, embora fina, nasce "Nenhum a Menos", do diretor Zhang Yimou, vencedor do Festival de Veneza do ano passado. Yimou continua sua tradição de grande apuro visual, embora tenha abandonado o requinte de trabalhos anteriores. Dialoga com a tradição iraniana ao construir um mundo a partir de fatos pequenos ou aparentemente pequenos e irrelevantes.
Que fatos são esses? No interior da China, um professor de escola primária precisa pedir uma licença para cuidar de sua mãe doente, que mora em outro lugar. Não tem substituto à altura. Para ocupar provisoriamente o lugar, chega uma menina de apenas 13 anos, Wei Minzhi. Ele não acredita que a garota possa controlar a classe. Avisa que os alunos estão debandando e ela não pode se dar ao luxo de perder mais nenhum. Daí o título. Ele não quer "nenhum a menos" quando voltar.
Essa passa a ser a obsessão de Wei. Ela tenta, aos trancos e barrancos, ensinar aos alunos o pouco que sabe, mas sua preocupação mesmo é que ninguém mais desapareça. Até que um dia some o aluno Zhang Huike, o mais encapetado da turma. Ela o procura e fica sabendo que o garoto teve de se mudar para a cidade grande, à procura de trabalho para sustentar a família. Vai atrás dele.
Boa parte do filme se passa nesse embate: o da provinciana Wei tentando fazer sua vontade prevalecer na grande metrópole, na cidade cujos códigos ela desconhece. Não se trata exatamente de uma visão positiva da China. Wei encontra em seu caminho a injustiça social, a indiferença burocrática, a truculência. Nada edificante em se tratando de uma sociedade dita planejada. Obstinação - Há muita semelhança entre este "Nenhum a Menos" e o anterior "A História de Qiu Ju", também premiado em Veneza. Neste, a protagonista era interpretada por Gong Li, uma deusa, atriz preferencial de Yimou, mas que aparecia então sem charme nenhum. Vestida de maneira desleixada, fazia uma mulher do povo que movia céus e terras para reparar a injustiça feita ao seu marido. Em "Nenhum a Menos", Wei é uma garotinha do povo também. E com a mesma obstinação. Quando chega à cidade grande, logo descobre que achar uma pessoa desaparecida não é apenas uma tarefa difícil - é, principalmente, uma luta tenaz contra uma barreira de indiferença.
Tanto Qiu Ju quanto Wei são personagens fortes. Mulheres fortes em uma sociedade de tradição patriarcal. Essa obstinação faz a beleza do filme. E, como ocorre nas produções iranianas, também nesta passamos a torcer pela personagem, como se a sua minúscula tarefa fosse um trabalho de Hércules. Talvez seja o segredo desse tipo de cinema: consegue pôr os fatos mínimos em sua real dimensão, isto é, em escala macro.
Essa é a herança que recebem do neo-realismo italiano, mais que qualquer outra, como a utilização de atores não profissionais, por exemplo. O "fato pequeno", posto no centro da história, era uma opção política clara desse cinema feito no pós-guerra e por gente de esquerda. Zavattini, De Sica, Rosselini achavam que chegara a hora do homem comum, das preocupações comuns, das alegrias e das tristezas da gente simples. Eram eles, com seu drama e sua comédia, que deveriam ocupar o centro da cena cinematográfica. Também é assim com o novo cinema iraniano e agora com o novo cinema chinês. Lição permanente - Em "Ladrões de Bicicletas", clássico de Vittorio De Sica, o roteirista Cesare Zavattini partia de um pressuposto: furtaram uma bicicleta, o instrumento de trabalho de um operário. Não havia, naquele momento, na Itália ou no universo, fato mais importante do que esse furto. É assim também como Yimou. Não há nada mais fundamental na China moderna do que o desaparecimento de Zhang Huike. Nem a inserção do país no capitalismo global nem a discussão sobre a convivência entre Estado forte e economia de mercado são mais importantes do que aquele aluno que deixou a escola por ser pobre. Essa é a lição permanente do neo-realismo: descobrir onde estão os fatos relevantes.


