Nem uma palavra
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Rafael Ceribelli <br> <br> Reportagem Local 
Elogiado pela crítica e dividindo opiniões do público no Festival de Cannes, no Festival de Londres e no European Film Awards, o filme ''Precisamos Falar Sobre o Kevin'' - estreia desta semana na programação nas salas do Cine Com-Tour/UEL e do Cine Lumiére - abre as portas para uma perturbadora jornada psicológica, que introduz lentamente o espectador à psique de uma mãe assombrada pelos fantasmas de seu passado.
''Mamãe era feliz antes de o pequeno Kevin aparecer, sabia?'', desabafa Eva (Tilda Swinton), encarando nos olhos o seu problemático filho. A declaração ríspida não é à toa; mesmo ainda sendo uma criança, já é possível identificar uma imensa crueldade nos olhos e nos atos do garoto (Jasper Newell). Mimado e sem limites, Kevin chora sem parar, espalha comida nas paredes e não responde aos estímulos e brincadeiras de ninguém. Ele não é autista, ele não é deficiente auditivo, ele é, simplesmente, mal.
Mesmo evidentes, todos os problemas que a criança apresenta são minimizados pela atitude 'morna' de seu pai Franklin (John C. Reilly), por quem o menino ainda tem - ou finge ter - um certo respeito. ''Isso é só uma fase. Ele é um bom garoto'', o pai se engana, na maioria das vezes. Eva, por outro lado, já desconfia que existe alguma coisa de muito errada com seu filho. A psicopatia do pequeno Kevin é abafada, em parte, pelo nascimento da adorável Celia (Ashley Gerasimovich), que parece estabelecer uma aparente normalidade à vida cotidiana da família. É um falso sentimento de segurança. O elefante ainda está na sala, apenas esperando a hora certa de agir.
Quando adolescente, o comportamento destrutivo de Kevin (Ezra Miller) fica ainda mais acentuado, principalmente aos olhos da mãe. Entre o jovem e o mundo parece existir um imenso abismo, um silêncio que Eva sempre tenta, em vão, quebrar. Ninguém nunca fala sobre Kevin. Ninguém nunca consegue estabelecer um vínculo real com o garoto ou entender suas ações - nisso reside, talvez, a maior falha do filme: Kevin é sempre um personagem unilateral, e é impossível encontrar justificativas para o seu comportamento cruel.
Como se revirássemos páginas desordenadas nas memórias maternas de Eva, o filme, em sua maior parte, é submerso dentro de uma aura fantasmagórica, muitas vezes embaçada. Fragmentado dentro de uma estrutura repleta de flashbacks e de elipses temporais não-lineares, o longa é dirigido de maneira competente pela cineasta Lynne Ramsay, que consegue estabelecer um clima angustiante. A trilha sonora e os ângulos inesperados de câmera também são cuidadosamente planejados, justamente para causar um desconforto, que permanece latente durante toda a projeção. A narrativa fica ainda mais dramática porque, entre um fragmento e outro, conseguimos deduzir qual vai ser o terrível (e esperado) desfecho da história.
Com um roteiro simples e quase sem diálogos, o segredo por detrás do sucesso do filme reside imensamente no talento de seu elenco principal; em especial, na perfomance maravilhosa de Swinton (que merecia, no mínimo, uma indicação ao Oscar deste ano). Com sentimentos conflitantes, sua atuação é feita de detalhes. Repare como, na primeira vez em que acompanhamos uma visita sua à prisão, ela demonstra, apenas através de pequenos gestos e sem nenhuma palavra, um misto de medo, culpa e ódio pelo próprio filho. Qual é o sentido de tanta violência? ''Não existe sentido. E este é o sentido'', responde Kevin, calmamente.


