Nem tudo é tão belo assim
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de maio de 1997
Carlos Eduardo Lourenco Jorge Especial para a Folha 2 
Andre Durand/France PressWim Wenders, entre os atores Traci Lind, Grabriel Byrne, Andy Mac Dowell e Marison Padilla: sofrendo de crise de criatividadeNão se pode afirmar que a seleção dos filmes em competição neste 50º Festival de Cannes esteja, pelo menos até agora, à altura das dimensões físicas e do significado simbólico do evento. Até aqui, há mais decepcões do que propriamente filmes de excepcional qualidade. A suspeita de que as melhores realizações estão circulando nas mostras paralelas e não competitivas - Un Certain Regard, Quinzaine des Realizateurs e Semaine Internationale de la Critique - não é gratuita. O problema e a multiplicação do tempo ou a descoberta na prática do princípio da ubiquidade.
Se isto ainda é possível, no último domingo a festa ganhou algumas dezenas de reforços, comandados pelo presidente em pessoa. Jacques Chirac chegou pela manhã, tomou café com alguns pesos-pesados da organização, ficou cerca de duas horas, gravou uma mensagem que agora não sai da rede interna do Palais e foi embora. Mas a soirée foi, até o momento, o must . Se a entrada para o Oscar e aquela techno-cafonália de sempre, a subida dos degraus da escadaria do Grand Theatre Lumiere é um dos momentos que transcendem a definição mais corriqueira de charme.
Até a vulgaridade de Stallone consegue se transformar neste cenário, dividindo os aplausos e a atenção dos fotógrafos com personalidades bem mais sutis. Domingo também foi sessão nostalgia. Ao lado dos novos e promissores Leonardo Di Caprio, Kate Winslet e Mira Sorvino, entre outros, foi possível observar a quantas andam Charlton Heston, Claudia Cardinale, Anouk Aimee, Gina Lollobrigida, Lauren Bacall e uma lista infindável de monumentos ainda vivos.
Wenders, adeus Não há por que abrir maior espaço para a lamentável tentativa de Johnny Depp por trás das câmeras. The Brave, co-roteirizado, dirigido e interpretado por ele. Fala sobre um índio pobre vivendo no meio do nada nos Estados Unidos de hoje. Com família para sustentar e atrás de emprego, o personagem faz um pacto com uma misteriosa figura da pequena cidade: em troca de 50 mil dólares, ele vai se deixar torturar e matar num desses snuff movies em que as mortes são reais.
A abordagem de Depp combina de maneira simplista aquele velho olhar de má fé hollywoodiana contra as minorias indígenas e com dois de seus mentores mais óbvios, Jim Jarmuche e Emir Kusturica, uma dupla que frequentemente mascara condescendência cultural com pretensão artística. The Brave é chatíssimo, um protesto oco e sem suporte antropológico, social ou psicológico. A origem de todos esses males está num roteiro absolutamente amador.
O Terceiro Mundo, aliás imediações do quarto, também veio a Cannes. Com o filme Kini e Adams, do diretor africano Idrissa Ouedraogo, de Burkina Fasso. Idrissa goza de certa estima de boa parte da crítica européia, em especial por dois filmes, Tilai e Samba Traore. É a maior producão africana deste ano. O filme tem duas ambições vitais: traçar um painel da vida difícil no interior rural da África e ao mesmo tempo dar a este painel uma dimensão humana e épica.
Se a carreira de Wim Wenders já vinha mal por conta de suas últimas trapalhadas - O Fim Mundo, O Céu de Lisboa - o panorama visto de Cannes só piora a trajetória recente deste alemão que, ao que parece, já deu sua contribuição. The End of Violence, realizado nos Estados Unidos, falado em inglês e com atores americanos (Bill Pullman, Andie MacDowell e Gabiel Byrne, os dois últimos presentes na coletiva) e a rendição definitiva de um diretor de talento a sua crise de criatividade.
A história mistura thriller policial com crítica de costumes, com crise existencial, com paranóia americana e com autocrítica. Com tantos ingredientes, a receita só tinha que desandar. Curiosa e quase integralmente bem resolvida a criacão do japonê Shoei Imamura. Unagi, ou A Enguia, é um raro e bom momento no caótico panorama do cinema japonês contemporâneo. O filme é sobre um homem que mata a mulher que o traía.
O que não se comprende no roteiro de Iamamura é uma súbita mudança de curso a meia hora do final. O que até então era um drama denso e envolvente na melhor tradição da escola realista japonesa transforma-se quase em pantomima, com algumas perigosas incursões à comédia bufa.
Se o festival terminasse ontem, dificilmente a Palma escaparia das mãos do taiwanês Ang Lee, que trouxe o ótimo The Ice Storm(Tempestade de Gelo), que o calor e o entusiasmo da platéia quase derreteram. Mais uma vez Lee dirige sua atenção para um núcleo familiar - sua especialidade: Comer, Beber, Viver, Razão e Sensibilidade. Agora estamos na América dos primeiros anos 70.
Baseado em romance de Rick Moody, o filme analisa o comportamento de uma típica família classe média em confronto com as mudanças nos costumes da época, em particular à revolução sexual. O ano em que o filme se detém é 1973. O pano de fundo é Watergate. A inocência parece seriamente abalada. Os personagens, os argumentos, as relacões: se você leu a trilogia Rabbitt, de John Updike, então o território fica ainda mais fácil para uma identificação.
Estamos nos domínios dos Casais Trocados, de determinada subúrbia classe média chique. Kevin Kline, Joan Allen e Sigourney Weaver comandam os adultos em grande estilo. E Elijah Wood e Christina Ricci (Família Adams) são esplêndidos como os adolescentes da era Nixon. Em tese, ainda faltam candidatos potenciais, mas The Ice Storm deve chegar ao final com justas e boas chances.


