Nem todos amam Woody Allen
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sexta-feira, 27 de junho de 1997
Angela Raizer Barbosa 
ReproduçãoMia Farrow, 52 anos: dossiê explosivo contra Woody AllenEnquanto o diretor de cinema Woody Allen chega às telas brasileiras com seu mais recente e elogiado filme, Todos Dizem Eu Te Amo, sua ex-mulher, a atriz norte-americana Mia Farrow, está nas livrarias com as revelações de seu relacionamento com o famoso diretor, cuja separação, em 1992, acabou nos tribunais e nas manchetes de jornais e tevês do mundo inteiro. O Que Fica Pelo Caminho É Para Sempre (Editora Objetiva, 292 páginas), é uma autobiografia surpreendente para uma estrela de cinema que, ao contrário do que faz a maioria das celebridades, dispensou a ajuda de um gost-writter para colocar no papel suas memórias. E que memórias!
Filha de Maureen OSullivan, a Jane mais famosa dos filmes de Tarzan, e do diretor de cinema John Farrow, Mia teria tido uma infância quase normal numa família numerosa para os padrões atuais - eram sete irmãos. Mas o ambiente hollywoodiano, o sucesso e a decadência das carreiras de seus pais, o excesso e a falta de dinheiro que culminaram com a separação deles, tornaram a infância e a adolescência de Mia tão inseguras que ela até pensou em ser freira depois de estudar num internato religioso inglês.
ReproduçãoA família Farrow em 1949. Mia é a segunda da direita para a esquerda
No entanto, antes de completar 17 anos, Mia já estava nos palcos, na TV e no cinema. Aos 19 anos casou-se com o cantor e ator Frank Sinatra e, alguns anos depois, com o compositor Andre Previn, com quem teve três filhos naturais e três adotivos. Aos dois ex-maridos, a atriz dedica vários capítulos carinhosos, principalmente a Sinatra, 30 anos mais velho que ela.
Sua consagração como atriz aconteceu primeiro na TV, na famosa série Peyton Place, e depois no cinema, quando brilhou como a protagonista de O Bebê de Rosemary, dirigido por Roman Polanski, filme que lhe abriu as portas para o sucesso internacional aos 23 anos de idade.
Apesar de descrever com detalhes o tempo em que vivia com seus pais famosos, em Beverly Hills, seus casamentos e os bastidores dos filmes em que atuou, é a relação com Woody Allen que mais causa impacto em sua autobiografia. No fundo, o livro é um acerto de contas com o cineasta que a levou ao desespero e aos tribunais depois de se tornar amante da filha adotiva de Mia, Soon-Yi, e de tentar abusar sexualmente de Dylan, adotada pelo casal, e na época (1992) com 7 anos.
Foram 12 anos e 13 filmes com Woody Allen, um homem inteligente e admirado, mas tão neurótico que os personagens esquisitos criados e interpretados por ele nas telas acabam parecendo normais. Pedófilo, tarado, inseguro, egocêntrico e hipocondríaco foram acusações que Mia levou ao tribunal respaldada por testemunhos de pessoas respeitáveis, compondo um dossiê sem defesa para Woody Allen.
Num trecho do livro, a atriz revela que Woody tinha um especialista para cada parte do corpo. Bastava estar um pouco indisposto, que tomava a temperatura de dez em dez minutos. Tinha no bolso uma caixa prata com pílulas para todo tipo de doença possível. Quando seus filmes eram lançados, ele fazia uma projeção para seus médicos e respectivas esposas, e a sala estava sempre cheia.... Fazendo análise há mais de 40 anos, Woody não comprava sequer um lençol sem consultar seus analistas, e só tomava banho sobre um tapete especial contra germes. Segundo Mia, um amigo lhe disse um dia: Não se pode dizer que o tratamento dele não tenha dado certo. Quem sabe sem isso ele talvez fosse um desses assassinos em série.
ReproduçãoCom Ryan ONeal em Peyton Place,
o primeiro grande sucesso da atriz
Por mais que digam que o livro de Mia é a vingança de uma mulher desprezada, não dá para ficar indiferente ao incrível romance entre Woody e Soon-Yi, às fotos pornográficas que ele fez da garota, que Mia achou no apartamento dele, e que desencadearam todo o drama familiar. Cultuado pela mídia, Woody saiu praticamente ileso desse episódio e está novamente nas telas, aclamado pelo seu último filme. Mas a Justiça americana não o perdoou: tirou-lhe a custódia dos filhos adotivos e só permite que veja o filho biológico que teve com Mia na presença de outra pessoa, ou seja, não pode ficar a sós com o próprio filho.
Na sentença, o juiz alegou que ... a reação do Sr . Allen à queixa de Dylan de abuso sexual foi atacar a Sra. Farrow, cuja competência como mãe e estabilidade emocional ele contestou sem nenhum respaldo e nenhuma evidência convincente. Sua estratégia no julgamento foi virar as crianças contra a mãe, afastar os filhos adotivos dos biológicos.... Obrigado a pagar as custas do processo (mais de 1 milhão de dólares), ele ainda entrou com recursos para tentar reverter a decisão judicial. Em vão, perdeu todos e só não respondeu ao processo criminal de abuso sexual por interferência de Mia, que não queria expor mais sua filha Dylan aos longos e traumatizantes depoimentos num tribunal.
Outro aspecto interessante na vida da atriz, que sempre fugiu ao estereótipo de glamour das estrelas de cinema, é a dedicação aos 14 filhos, principalmente os dez adotivos, a maioria deles com deficiências físicas e órfãos da Guerra do Vietnã. Filmando em Nova York, Bora Bora, Irlanda, ou viajando pelo mundo em férias, lá estava Mia com sua trupe de filhos. No set, nos intervalos das filmagens, a atriz ficava tricotando roupas cercada por suas crianças. A partir de 1970, ano em que teve os gêmeos com Andre Previn, até 1995, quando adotou o último filho, sempre havia crianças pequenas a sua volta.
Entre as conclusões da sentença judicial, transcritas integralmente no apêndice do livro, o juiz argumentou que ...é patente que a Sra. Farrow gosta das crianças e que dedicou uma parte significativa de sua riqueza emocional e material a sua criação. Ironicamente, a principal falha da Sra. Farrow como mãe parece ter sido sua relação prolongada com o Sr. Allen...


