Este ''Presságio'' que entra hoje no circuito nacional (veja a programação de cinema na página 2) talvez seja o único exemplo, na atual febre apocalíptica que assola Hollywood (filmes feitos antes do anúncio da crise, diga-se), em condições de deprimir genuinamente o público com sua perspectiva sobre nosso futuro - por oposição a todos estes títulos esmagados pela tirania dos efeitos especiais.
O filme começa com a abertura de uma cápsula do tempo enterrada há 50 anos no colégio do pequeno Caleb (Chandler Canterburry). Dentro dela, além de desenhos do nosso presente imaginado por alguns alunos como um paraíso de robôs, naves espaciais, astronautas e convivência fraternal, está uma carta que não é outra coisa senão uma longa lista de números. O pai de Caleb, o viúvo atormentado e astrofísico John Koestler (Nicolas Cage, infatigável na tarefa impossível de substituir Charlton Heston neste tipo de papel), desconectado deste mundo desde a morte da mulher, logo se debruça na tarefa de resolver o enigma destes números como espécie de lenitivo para sua existência sem motivações.
E ele descobre com convicção (quase religiosa) que a tal lista guarda estreita relação com todas as catástrofes que ocorreram no último meio século. Dono do segredo, John resolve virar caixa de ressonância (e de Pandora...) e contar aos quatro ventos o que ele sabe, advertindo a humanidade de novas tragédias. Com ele nesta tarefa está a filha da autora da lista (Rose Byrne), cuja vida, como a de John, está completamente ligada a tudo o que ela revela.
Como em outros filmes que assinou (''O Corvo'', a muito intrigante ''Dark City'', onde ''Matrix'' foi buscar inspiração, e ''Eu Robô''), o diretor Alex Proyas de novo amarra a vertente psicológica ao âmbito social, daí resultando curiosas reflexões sobre o ser humano e seu entorno, claro que observadas a partir do ponto de vista da fantasia. No caso de ''Presságio'', há ainda a conjugação de um tema astronômico - o comportamento do sol nas últimas décadas - e a reflexão filosófica sobre o determinismo e sua antítese, assim como as naturais consequências que cada postura implica para os indivíduos: existe um destino predeterminado, e portanto, com um propósito específico para a humanidade, ou não ? Em outras palavras: existe Deus ?
A direção inquietante de Proyas, inclusive na criação de um visual perturbador, sabe tirar proveito deste emaranhado argumental, cujas situações variam da ação ao suspense, passando com correção pelo drama, e isto também graças a dialógos com certa substância além do gasto habitual hollywoodiano. O filme sobrevive bem e não perde seu foco, apesar de certas reviravoltas artificiosas. De qualquer modo, ''Presságio'' não provoca amnésia imediata quando termina, já que coloca algumas idéias polêmicas no seu intento de trabalhar simultaneamente as inquietudes científicas e espírituais.

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