São Paulo - Unir a moda à arte não é um conceito novo. Cada vez mais os estilistas utilizam-se de idéias de artistas em seus desfiles e coleções de roupas. Mas Tito Bessa Júnior, dono da rede de lojas TNG, quer ir mais longe e fazer desse encontro um real intercâmbio entre os profissionais da moda e das diferentes áreas artísticas. Por conta disso, fez a última coleção de sua marca baseada em Burle Marx e agora quer combinar as propostas de seus estilistas à obra e à vida de nosso dramaturgo maior, Nelson Rodrigues, no ano em que se completam 90 anos de seu nascimento.
Para realizar esse intercâmbio, o empresário entrou em contato com a agência cultural ComTato, que o auxiliou a alinhavar o projeto. ‘‘A nossa agência faz o acompanhamento de projetos culturais de longo prazo, apoiando-o do começo ao fim’’, conta Cláudia Taddei, sócia da agência com Érika Facca. Após explicar qual era sua proposta, a agência passou a congregar profissionais que se identificassem com o projeto. ‘‘Pensamos em juntar o lançamento da coleção de verão da TNG, baseada em Nelson Rodrigues, com eventos culturais paralelos que lembrem a data dos 90 anos de seu nascimento.’’
Para isso chamaram o produtor Márcio Macena e o diretor teatral Marco Antônio Braz, que tem um vasto currículo rodriguiano, como a montagem de ‘‘Perdoa-me por me Traíres’’, que ficou mais de dois anos em cartaz e foi sucesso de público e crítica, ‘‘Viúva, porém Honesta’’ e ‘‘Bonitinha, mas Ordinária’’, entre outras. Desta vez, no entanto, não será levada ao palco uma obra pronta, mas seis contos que estão sendo adaptados pelo filho do autor, Nelsinho. ‘‘Os contos são bastante diferentes, mas todos tratam da questão de como lidar com o tédio inerente a qualquer vida conjugal’’, conta Braz. ‘‘A adaptação modificará principalmente o papel do narrador, que estamos pensando em transformar em um leitor.’’ O nome de Nelsinho como adaptador surgiu porque, além de profundo conhecedor da obra de seu pai, ele já verteu textos para a televisão e para o cinema. ‘‘Nós nos conhecemos de longa data, pois tenho muito contato com a família do Nelson; esse projeto era antigo e a sua realização veio em muito boa hora’’, comenta.
Para o diretor, formado em artes cênicas pela UniRio e egresso do CPT (Centro de Pesquisa Teatral), de Antunes Filho, a idéia de aliar sua pesquisa de anos sobre a obra de Nelson a um evento de moda no início pareceu meio estranha. ‘‘Mas a partir do momento em que comecei a tomar contato com a equipe de produção e a entender realmente a motivação do projeto, meus preconceitos ruíram’’, diz. Para aprofundar o conhecimento da equipe da TNG sobre o universo de Nelson Rodrigues, o diretor realizou alguns workshops com eles, nos quais liam os contos e discutiam sobre diversos aspectos da obra. ‘‘Os estilistas estão lendo toda a obra do Nelson e começam a discuti-la cada vez com mais propriedade’’, observa. Além da coleção temática, o figurino da peça também será desenvolvido por essa equipe. ‘‘Ao aceitar participar da empreitada, me dei conta de que esta é uma oportunidade muito boa para que se difunda cada vez mais a obra do Nelson e acabe-se com os estereótipos que ainda se tem de sua criação’’, argumenta Braz.
O caráter popular do projeto, que quer vincular a obra do dramaturgo com a venda de roupas, passa por uma campanha publicitária maciça que inclui outdoors de toda a cidade, propagandas em revistas e jornais de grande circulação e diversas promoções que unirão a compra de produtos à de ingresso e descontos. ‘‘Esse conceito visa a fazer uma ponte entre o comércio e o teatro. Falta, muitas vezes, essa iniciativa, que incentiva as pessoas a irem mais ao teatro’’, acredita Cláudia Taddei. ‘‘Para que isso ocorra, não poderia haver melhor marca, pois a TNG tem cerca de 80 lojas espalhadas por todo o País.’’ Para que um maior número de pessoas se interesse em ir ao teatro, o elenco, que ainda está em fase de definição, contará com nomes de peso da televisão nacional. ‘‘Queremos levar a massa ao teatro, então, temos de contar com rostos conhecidos dela’’, explica Braz. ‘‘Mas em primeiro lugar está a qualidade do projeto, por isso exigi atores conhecidos e talentosos.’’
O lançamento da coleção ocorrerá em março e a peça estreará no dia 5 de abril no Teatro Augusta, em São Paulo. Os ensaios já estão em ritmo acelerado. ‘‘Essa foi outra exigência minha, pois não consigo estrear uma peça sem no mínimo três meses de ensaio’’, garante o diretor. ‘‘Todos os requisitos para um trabalho teatral de alto nível foram respeitados, como um bom elenco e tempo para trabalhar. É por isso que eu e o Nelsinho achamos que a resposta do público será muito positiva.’’ O orçamento do projeto ainda não está fechado, mas o patrocínio para a montagem é da própria TNG. ‘‘Buscaremos co-patrocínios, pois a idéia é estender o projeto o máximo possível’’, conta Cláudia.
O elenco da nova montagem capitaneada por Braz não contará com nenhum dos atores do seu grupo, o Círculo dos Comediantes (Maurício Marques, Virgínia Bukowski, Patrícia Gordo, Sílvio Restiffe, Alejandra Sampaio, Adriana Dhan e Edmilson Cordeiro). Explica-se: eles serão o próximo elenco a ocupar a sala de repertório do TBC, onde apresentarão cinco encenações de textos de Nelson só neste primeiro semestre. ‘‘Já temos algumas montagens prontas, ensaiadas à exaustão, como a do ‘‘Beijo no Asfalto’’; precisávamos só do espaço’’, comenta Braz.
Além de ‘‘Beijo’’, estrearão simultaneamente ‘‘Viúva, porém Honesta’’, em uma nova versão, e o monólogo ‘‘Valsa Número 6’’, com a atriz Rejane Arruda. ‘‘Depois de muitos anos, finalmente encontrei uma atriz que sabe tocar piano e, mais do que isso, sabe tocar a valsa número 6 e bem’’, exulta Braz. As montagens das peças ‘‘A Falecida’’ e ‘‘Dorotéia’’ estréiam em abril. ‘‘Ocupar essa sala do TBC será ótimo, pois haverá espetáculos de quinta a domingo, com duas sessões por dia. Assim, até o fim do ano, teremos um amplo painel da obra de Nelson. Em um ano comemorativo, ainda por cima’’, diz o diretor, que tem em mente montar todas as 17 peças do autor, em um futuro próximo. Por enquanto, o grupo só conta com o patrocínio do próprio TBC, que cedeu a sala. ‘‘Esse é um grande patrocínio, dos mais importantes que existem, mas ainda estamos pleiteando outras parcerias, que espero sejam fechadas já neste início do ano’’, especula o diretor.

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