Aos 65 anos, Nelson Motta ainda segue os conselhos da mãe, de 89. Primeira leitora dos escritos do filho, Cecília, mais conhecida como dona Xixa, sempre recomendou: ''Meu filho, você deve escrever sobre coisas que você conhece.'' Obediente, o jornalista, compositor, produtor musical e cronista, colocou isso à prova em seu novo livro, ''Força Estranha'' (Editora Objetiva).
Em janeiro deste ano, Nelson Motta viajou para a Bahia, como de costume, para descansar. Vivendo um período de escassez criativa após o sucesso com a biografia ''Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia'', o escritor não tinha pretensão de escrever um livro de ficção. Porém, tomado por um surto de criatividade, como ele mesmo define, em 45 dias escreveu 300 páginas de um material que mesclava ficção com realidade. Logo que retornou ao Rio de Janeiro, jogou metade fora para, depois de um exaustivo trabalho de edição, que levou cerca de quatro meses, chegar ao resultado final de ''Força Estranha''.
O livro é a compilação de dez narrativas passadas em diferentes locais e em diferentes épocas, sempre confundindo o leitor sobre real e sobrenatural. ''A graça é justamente essa, de fazer o tempo todo essa brincadeira com quem lê. Algumas histórias eu tenho mais vivência com o assunto, como a história do cara que perdeu o olfato, como eu também perdi, e me salvei com um acupunturista chinês, só que não tem noiva, não tem mulher, não teve na minha vida nada daquilo que tem naquele conto do livro'', diz Motta.
A história a que o escritor se refere é ''Os Sentidos da Vida'', que trata de um rapaz que perde o olfato em Nova York e acaba curado por um acupunturista chinês e atraído pela secretária e noiva do médico. É apenas um exemplo de contos repletos de turning points bem amarrados, amparados por um texto com ritmo, que tornam a leitura atraente e fluente. O mesmo ocorre em ''O Cavalo'', história de abertura do livro e que conta a experiência de um rapaz em um terreiro de candomblé para esquecer a antiga amada; a mais escancarada e próxima da realidade, ''Bola na Rede'', que tem como pano de fundo a Copa de 1978, na Argentina mergulhada em uma ditadura cruel, com um jovem jornalista brasileiro falastrão e galanteador de loiras portenhas; e ''Noite Quente no Motel Barato'', baseada em um assalto ao hotel carioca Agris, uma pocilga decadente famosa na década de 1980, em Ipanema, em que todos os hóspedes terminam a história deixando a espelunca, acabando pelados, de madrugada, no meio da rua.
Todas as narrativas, costuradas por intrigas, mistérios e motivações ''estranhas'', como sugere o título do livro, que levam os personagens a se indagarem sobre o porquê de estarem seguindo determinados passos e tomando certas atitudes, têm uma atmosfera quase rodriguiana. Motta assume a inspiração permanente em Nelson Rodrigues, de quem leu a obra integral e com quem pôde conviver, e, modesto, prefere não chamar seu ofício de literatura. ''Eu escrevo livros apenas. Eu sempre sigo a tática de fazer com que um parágrafo atraia o leitor para o próximo. É a tática do Gabriel García Márquez para hipnotizar quem lê'', conta o escritor.
Segundo ele, seu trabalho como letrista de música o ajudou a aprender a imprimir ritmo nas frases de seus livros. ''No sentido de comunicar, minhas obras têm mais a cara de um Tim Maia e um Lulu Santos do que de Edu Lobo, Chico Buarque e Guinga'', completa Motta.

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