NELSON MOTTA E A MPB
Agência Folha
Testemunha privilegiada dos últimos 40 anos da história da MPB, o jornalista/produtor/ compositor/empresário/ crítico/escritor Nelson Motta, 55, registra em Noites Cariocas 464 páginas da contemporânea experiência musical brasileira.
Carioca nascido em São Paulo - mora em Nova York desde 92 - relata episódios que o fizeram, mais que testemunha ocular, participante ativo da canção nacional. Bossa-novista de segunda geração, amigo de João Gilberto (e, conciliador que é, de quase toda a MPB), ex-namorado de Elis Regina, dono da boate Frenetic Dancin Days (nos 70) e arregimentador de artistas como Tim Maia, Frenéticas e Marisa Monte, falou por três horas, na casa da filha, no Leblon. A seguir, leia trechos da entrevista.
O critério de seleção das histórias que você narra é sua participação nelas?
Sim. No iniciozinho do livro, há a nossa turminha de Copacabana, eu, Edu Lobo, Marcos Valle, Dori Caymmi, garotos radicais, que gostavam de cool jazz e bossa nova. E havia o pessoal da zona norte, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Tim Maia e Jorge Ben. Achei indispensável narrar em paralelo essa oposição entre os garotos de classe média, universitários, educados, sofisticados, querendo falar de mar, sertão, pescadores, camponeses, Zumbi, e, do outro lado, na zona norte, os outros indo à música como quem vai num prato de comida. Eles não sabiam, mas metaforicamente era luta de classes.
Você fala das vertentes opostas da bossa nova, os contemplativos e os politizados, sem querer optar por nenhuma delas. Na época você optava?
Eu vivia num conflito permanente. Era muito amigo de Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, mas gostava mais da música de Carlos Lyra com Vinicius, Edu, Francis Hime. Mas gosto das pessoas, me apego e acabo gostando talvez até mais da música delas, porque misturo. Tento de todas as formas equilibrar. No tropicalismo era milagre conseguir. Você tinha de ser contra ou a favor.
Depois da bossa e da tropicália a ambição minguou?
Tanto aqui como lá. Não há audácia, as melhores coisas hoje são sínteses. Discordo do que se fala dos anos 90, que é só pagode e axé. Sempre houve uma música hegemônica. Isso é uma merda, não serve para nada, é o leito do rio onde correm os barcos. O gênero hegemônico traz em si mesmo seu próprio veneno.
Você escreve que Elis detestava bossa nova, Jobim, João Gilberto. Isso era público?
Não sei se falava em jornal, mas ali, no convívio com ela, a gente sabia. Ela não estava interessada, seu ídolo era Angela Maria. Simonal era filho de uma lavadeira de Copacabana, um crioulo carioca. Elis era uma pobre coitada do subúrbio de Porto Alegre.
Você fala do pacto entre Roberto e Erasmo Carlos, de que, mesmo que um escrevesse uma música sozinho, os dois assinariam. Existe esse pacto?
Existe, é verdade. Eles têm um textinho pronto que mesmo quando um faz, o outro dá palpites... Não há muita justiça em relação a Erasmo, é um compositor genial. O pacto é muito a cara de Roberto, de manter a mesma coisa que está dando certo. Ele não quer mexer, é um mistério. Esse pessoal todo faz mais ou menos a mesma música. Há uns três modelos de músicas de Rita Lee, de Caetano, de Roberto e Erasmo.
As Frenéticas eram uma armação sua?
De jeito nenhum. Foi tudo por acaso. Elas eram garçonetes da minha boate, Frenetic Dancin Days. Escolhi músicas para cantarem, Roberto de Carvalho ensaiou. Depois é que a Globo fez a novela Dancin Days - aí, nesse sentido, pode falar que havia uma armação. A Globo comprou de mim o nome, me pediu a música de abertura da novela, que foi um grande sucesso. Elas não se sustentaram porque nada da disco se sustentou. Foi superexposição, ninguém aguentava mais, era o gênero hegemônico.
Você só cita a banda Ira! para dizer que o vocalista, Nasi, namorou Marisa Monte, por quem você era apaixonado. É por ressentimento?
Me dou bem com Nasi, Edgard Scandurra é um dos melhores músicos do rock nacional, mas em nenhum livro você lê que o Ira! estava entre os grandes dos anos 80. Pessoalmente, nunca foram dos meus favoritos. Os Titãs são meus favoritos.





