A voz seca do delegado atravessa a ante-sala, o corredor escuro cheirando a mofo e vai bater nos ouvidos do carcereiro:
- Tragam o homem!
Logo aparecem dois policiais corpulentos segurando pelos braços o tipo mirrado e esquisito:
- Licença, doutor.
Que figura, pensa o delegado. O prisioneiro sorri meio sem jeito, os olhos brilhando atrás dos óculos.
- Está rindo pra mim ou está rindo de mim, ô panaca?
Menos por arrogância que por timidez, o homenzinho eleva os ombros e encolhe o pescoço, como se quisesse meter a cabeça dentro do corpo, a imitar uma tartaruga.
- Então você é o agitador risonho...
- Hi,hi,hi...não senhor...
Um dos policiais dá-lhe um chacoalhão:
- Cala a boca, não é para falar nada ainda.
O outro soldado completa:
- E pára com esse risinho irritante, pombas!
O delegado pergunta, de olhos baixos:
- Casado?
O homem emudece, contendo o riso.
- Responde, tranqueira! - berra um policial.
- Desculpa. Pensei que a pergunta fosse para o seu amigo.
- Casado?
- Sim senhor...hi,hi,hi...
- Tem filhos?
- Três.
- Trabalha?
- Não consigo emprego. Seis meses...hi,hi,hi
- Mora onde?
Diz o endereço completo, num bairro da periferia. Ri novamente, leva um tabefe nas costas. O delegado:
- Sua vida é uma droga, o planeta está vindo abaixo com a crise econômica, a Rússia, a China, o Japão, todo mundo quebrando. Eu mesmo vou ter de trocar meu carro por outro mais barato. O capitalismo pode ruir, estamos à beira de uma catástrofe e você fica aí rindo o tempo todo...
- Os vizinhos disseram que ele pirou - comenta um soldado.
- Que nada! Foi examinado por um psiquiatra. Estou com o resultado aqui na minha mesa.
- Então é tóxico, doutor!
- Solicitamos exame de sangue. Careta.
- Cachaça?
- Negativo.
O prisioneiro tapa a boca com o braço para sufocar o riso.
- Então? - O soldado pergunta.
- Esse cara é um gozador. Tranca ele.
O homenzinho tenta se defender, palavras e risadas se misturaram.
- Não fiz...hi,hi,hi...nada.
- Você está debochando da desgraça alheia. Um sujeito vingativo. Acha que nós da classe média vamos nos ferrar, sentir na pele o que é ser pobre.
É disso que você ri, eu sei.
- Isso é crime, doutor? - perguntou o policial, coçando a cabeça.
- Perturbação da ordem, desacato a autoridade e...subversão. Isso aí. Subversão. Podem levar pro xadrez.
Os policiais obedecem, arrastam o homenzinho para trás das grades. Uma gargalhada ecoa pelos corredores.

TOKS.TOKS.TOKS.TOKSTOKS.TOKS.TOKS.
•O jornalista Joel Gehlen envia-me exemplar de ‘‘15 Anos de Dança - Festival de Joinville’’ (Ed. Funarte). Joel é um dos autores do livro, ao lado de Suzana Braga e Paulo Cesar Ruiz. Trata-se de uma esmerada edição, capa dura, 330 páginas em papel couchê e ilustrada por belas fotos. O Festival de Dança de Joinville (SC) merecia mesmo um livro de arte como este contando a sua história.
•O cantor e compositor cearense Eugênio Leandro, velho conhecido dos londrinenses, vive um ótimo momento em sua carreira. Depois do CD ‘‘Cantorias e Cantadores’’ ao lado de Cida Moreira, Xangai e Renato Teixeira, Eugênio está divulgando seu primeiro CD solo (Kuarup Discos) e prepara um show ao lado do acordeonista Oswaldinho, no Rio.
•Será aberta hoje, às 20h30, no Espaço Cultural Banestado (Av. Bandeirantes, 500 - Londrina), exposição de trabalhos da artista plástica Cláudia Rezende.
•Na próxima quarta-feira, vernissage da exposição de Nêmora Fasolo. Às 20 horas, no Espaço de Cultura Catuaí (Londrina).
•‘‘Cidades Invisíveis’’ é o nome do espetáculo que a Cia. Independente apresenta a partir de hoje, às 21 horas, no Teatro Núcleo 1 (Londrina). Adaptação livre da obra homônima do escritor Ítalo Calvino. Direção de Wagner Donadio de Souza.

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