Como a metáfora é aparentemente óbvia, creio que outros autores, além do tcheco Milan Kundera, já empregaram a imagem da bola de ferro atada aos tornozelos para representar o destino. Se você é do tipo que não acredita em destino, evidentemente trata-se de uma pessoa destinada a não acreditar em destino. Enfim, seguindo o raciocínio, tudo é destino: nascer no Brasil, envelhecer no Brasil, morrer no Brasil e, pior, ser eleitor no Brasil. Há quem simplesmente não se preocupe com esta bobagem. Afinal, se qualquer coisa que se faça, qualquer decisão sofrida que se tome, já é parte de um roteiro (quase sempre de filme B, é verdade), então o melhor é apenas viver sem esquentar a moringa. Mas há quem fique inconformado com a programação de baixo nível desta vida. E o questionamento, tenho quase certeza, é a ante-sala do inferno existencial.
Noite. Meio de semana. O casal na cama.
A mulher:
- Morzinhô!
- Humm?
- O que você está lendo?
- Livro.
- Isso eu sei, né. Romance?
- Não.
- Auto-ajuda?
- Humfp (resmungo indecifrável)
á- É, morzinhô?
- Não, pombas, é outra coisa, filosofia, ética...
- Por que você está assim hoje?
- Assim como?
- Nervoso, irritado, chato pra caramba.
- Eu estou chato? Só quero ler meu livro em paz, relaxar, esquecer o dia horrível que eu tive. Você fica me atrapalhando e eu é que estou chato?
Ela sorri:
- Lembra-se do que a gente combinou?
- O foi que a gente combinou, meu Deus?
- Puxa, obrigada. Antes você só me chamava de ‘‘meu anjo’’. Fui promovida.
Ele finalmente desvia os olhos dos caracteres impressos:
- O que a gente combinou?
- Cada um de nós poderia ficar nervoso uma semana sim, outra não. Esta é a minha semana!
- Desculpa, tá? Mas realmente não estou com o menor senso de humor.
- Posso saber o que aconteceu?
Ele fecha o livro, esfrega o rosto:
- O motivo? Você quer saber, é? O motivo é tudo. A vida, essa droga de vida, essa coisa besta em que a gente vai se metendo dia-a-dia, desde que nasce, entende? O que eu poderia ter sido e o que sou, os cacos dos meus sonhos, o peso da condição humana, o tempo que eu gasto convivendo com gente idiota...
- Credo, amor!
- A bola de ferro do destino...
- Não sabia que era tão sério. Vem cá, vem.
Ela acaricia a cabeça dele. Ele se aninha no colo dela feito um menino. Ficam assim um tempo, quietos, cada qual com a viagem do seu pensamento.
Então ela resolve perguntar:
- Morzinhô, quando você disse ‘‘convivendo com gente idiota’’ por acaso estava me incluindo?

TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS
•Lotação total. O show ‘‘Astronauta Libertado’’ produzido por Robinson Borba e apresentado terça-feira no Teatro Zaqueu de Mello, em Londrina, agradou ao público. A mistura de boa música sertaneja e folia de reis, reunindo jovens músicos e duplas tradicionais deu certo e merece uma reapresentação. Fica o toque para a Secretaria de Cultura.
•Faxinal está promovendo a 2ª Festa do Folclore. Até domingo, haverá apresentação de grupos de dança, shows e coral, barracas de comidas típicas e um parque de diversões. A festa acontece na rua Ismael Pinto Siqueira. Promoção da Secretaria Municipal de Cultura.
•Memória. No próximo dia 31, às 20h30, a Associação Cultural Banestado inaugura o Arquivo Cultural de Londrina, instalado em uma casa construída na década de 40 (Avenida Higienópolis, 150).
•Recebo o número 227 do ‘‘Entrelinhas’’, jornal da Telesp, que tem entre seus editores o poeta e jornalista Ademir Assunção. Uma das matérias traz entrevista com o cartunista Laerte, que ilustrava o ‘‘Entrelinhas’’ em 1973, quando a publicação era editada por Diléa Frate, atual diretora do ‘‘Jô Onze e Meia’’. Telefone da Divisão de Imprensa da Telesp: 011-3177-3778. Quem quiser conhecer a publicação, pode ligar para o Ademir ‘‘Pinduka’’ Assunção.

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