Nelson Capucho
O amigo Wilson Bueno, poeta e cronista do primeiro time, revelou-me anos atrás que tinha planos de escrever um livro sobre o dialeto caipira do Norte do Paraná. Não devo estar cometendo uma inconfidência porque o Bueno não me pediu segredo. Também não sei se o autor de Mar Paraguayo levou - ou ainda pretende levar - a idéia adiante: não falamos mais sobre o assunto. Mas o fato é que me lembrei do Bueno quando o cartunista e ilustrador Douglas Mayer me presenteou com um exemplar do Dicionário do Dialeto Caipiracicabano, de autoria do jornalista e pesquisador Cecílio Elias Netto (ele escreveu também Magic Paula, a Trajetória de Uma Campeã).
O livro, com capa do Douglas Mayer, foi editado em 1996 pela Academia Piracicabana de Letras. Tomo a liberdade de republicar aqui alguns de seus verbetes bem-humorados:
Absurdado - Diante de acontecimentos ou fatos tidos como absurdos ou apenas surpreendentes, o piracicabano não se espanta e nem se assusta: fica absurdado. Quando o ex-presidente Fernando Collor sequestrou o dinheiro da poupança do povo, um jornal piracicabano anunciou, protestando em oito colunas, a manchete do dia: Povo fica absurdado com Collor.
Arco - Pronúncia caipiracicabana do substantivo álcool. Assim, não se deve estabelecer confusões: arco é álcool. O outro arco, segmento de curva, peça curva, é conhecido como meia rodinha (...)
Custipado - Os caipiracicabanos nunca ficam gripados ou resfriados. Quando acontecem essas pequenas enfermidades, eles ficam custipados (...)
Mijá pra trais - Acovardar-se, recuar, desdizer-se. Muié, quando nego a pede em casamento, aceita, mas fica preocupada: Tá bão...mai, se eu dissé que aceito, despois ocê num vai mijá pra trais?
Niquifumo - (...) Tem o significado de assim que fomos , quando fomos (...)
Pintoso - É o nego com boa aparência, nego com panca. Há quem diga do ator Tarcísio Meira: Pode tá meio perrengue, mai ele inda é pintoso, num é memo?
Quédis - É o mesmo que tênis, ou o calçado conhecido como tênis, propriamente dito. A Adidas levou meses para compreender porque os tênis com aquela marca não tinham compradores em Piracicaba. Um comerciante explicou: Tamém, oceis fica anunciando esse tar de tênis Adida qui ninguém sabe o que é. Tem que anunciá que vai vendê quédis. Mudou-se a propaganda e tudo deu certo.
Claro que isto é uma pequena amostra. Há muitas outras palavras e expressões divertidas, colecionadas com carinho por Cecílio. Mas tem uma que acho muito interessante e não figura no dicionário, embora seja falada há mais de 30 anos no Norte do Paraná. Talvez porque não seja comum no interior paulista. É a expressão deitá o cabelo, que significa ir embora, cair fora, dar no pé, fugir. Assim, com uma singela contribuição para o livro que o Wilson Bueno poderá escrever algum dia, este cronista vai deitando o cabelo. Inté.
TOKS.TOKS.TOKS.TOKS
No próximo dia 25, a partir das 21 horas, no Teatro Zaqueu de Mello em Londrina, o compositor e produtor Robinson Borba reúne seus convidados especiais no show Astronauta Libertado. No programa, canções sertanejas. O nome do show faz referência a uma música do lendário grupo de rock Os Mutantes. Isto é Robinson Borba.
Aproveitando o mote de mês do folclore, a Prefeitura de Londrina programou para agosto uma série de atividades. O show do Robinson faz parte da programação da II Londrina Mostra Folclore. Outra atração é o show de voz e viola São Gonçalo e o Saci, com o violeiro Paulo Freire e Ana Savagni. Dia 29, 21 horas, também no Zaqueu de Mello.
Para os colegas jornalistas: estão abertas as inscrições para o Prêmio Esso de Jornalismo 1998. Além do prêmio principal, há também as categorias reportagem, fotografia, informação econômica, informação científica, tecnológica ou ecológica e criação gráfica. Até 30 de setembro. Informações pelos telefones (021) 277-2196 e (021) 522-5941.





