Nelson Capucho
Alessandro Abbonizio/France PresseÉ só uma fotografia no jornal.
A imagem foi captada no Sudão por Alessandro Abbonizio, da France Presse. Apenas uma fotografia entre tantas publicadas na Folha de segunda-feira. Mas estilhaça o humor da próxima crônica, apaga os versos na tela do computador, silencia mênades e sereias e faz espocar flashes de melancolia aqui, no meio-inverno deste país distante, em outro continente. Um grande país da América, sem guerras ou terremotos, mas que também não consegue resolver a fome de seus meninos. E se existe um só menino passando fome, uma só pessoa passando fome como este menino, me perdoem os leitores: não há metáforas, não há poesia que dê jeito.
O menino sudanês está nu, como todos os anjos. Ajoelha-se sobre uma perninha e seus ossos finos, à flor da pele, se alinham em dolorosa geometria. Ele se apóia numa árvore, em meio à paisagem árida de uma cidade chamada Aljiep. A árvore tem uma cor triste. E se retorce também de fome, de sede, de sofrimento diante da guerra, diante da estupidez de uma parte do mundo animal que se convencionou chamar de humanidade. Olhando para a fotografia no jornal de segunda-feira, me bate a certeza de algo que eu já desconfiava há algum tempo: se pertenço - ainda que involuntariamente - à mesma humanidade que avaliza atrocidades como esta, não devo ser lá grande coisa. Correspondentes informam que 1,2 milhão de sudaneses correm risco de vida por desnutrição. Muitos já morreram.
O menino sudanês é só uma fotografia no jornal. Não sei sequer o nome dele.
A mãozinha esquerda do menino, reparem bem, quase se mistura à árvore, seu apoio, sua irmã: duas plantas secas numa estação de medo. A cabeça do menino assume tamanho desproporcional no corpo débil. Ele parece olhar para a fita de plástico presa ao seu pulso direito, como uma criança - o meu filho, o seu - olharia o reloginho que ganhou de brinde no shopping center. A fitinha não é mero adereço: é um documento de identificação. Os dentes do menino sudanês se salientam. O que pensa neste momento? Será que ele ri em meio ao caos?
É só uma fotografia no jornal de segunda-feira. Aquele que na terça-feira pela manhã será empilhado pela empregada no pacote de inutilidades, aquele que estará no assoalho de carros recém-lavados e reluzentes, nos pisos de madeira nobre durante a nova pintura da residência, aquele que ficará colado nos vidros das butiques em reforma. O menino esquálido do Sudão apoiado em uma árvore seca durante um instável cessar-fogo. É só uma fotografia no jornal que também será arquivado, catalogado nas bibliotecas públicas e integrará o grande livro da história de um tempo: o nosso. E deste crime sempre restará vestígio. No futuro, alguém vai dar de cara com o jornal do dia 20 de julho de 1998, uma segunda-feira, e lá estará o menino sudanês.
É só uma fotografia no jornal, esta de autoria de Alessandro Abbonizio, da France Presse. Mas grita como milhões de bocas, gargantas e estômagos. Grita com a voz de todas as fomes.





