Brasileiro adora ‘‘souvenir’’. Pode até negar, porque acha brega, mas adora. É só viajar para qualquer lugar e logo bate no peito aquela vontade louca de comprar - ou ‘‘descolar’’ - uma bugiganga que eternize o momento. Nem falo dos cleptomaníacos, dos larápios light, que surrupiam talheres dos restaurantes e toalhas dos hotéis (que coisa feia, madame!).
Quando a paixão pelos ‘‘recuerdos’’ se une à emoção do futebol, então, sai da frente! Basta olhar o enxame humano, após a conquista de um título, a invadir o gramado ávido por uma ‘‘lembrancinha’’.
Dona Clotilde assistia ao jogo final do campeonato na TV e surpreendeu-se com a imagem do maridão no meio da festa:
- Minha nossa, é o Amaro!
- É campeão! É campeão!
Os torcedores esgoelavam, correndo atrás do craque. E o marido da dona Clotilde junto:
- A camisa! Dá a camisa pra mim pelo amor dos meus filhinhos!
Outro arquibaldo mais esperto levou a camiseta suada.
- Pô, então me dá o meião! O meião!
Levaram as meias (e o chulé) do artilheiro. O Amaro não conseguiu nada.
- Vamos tirar o calção dele!
E a dona Clotilde ali, olhos estalados diante do vídeo:
- Santo Deus, não é o Amaro! Não pode ser. Ele sempre foi um homem tão sério...
Pois foi esta estranha paixão por ‘‘souvenir’’ que proporcionou a melhor comédia da Copa do Mundo de 1958. Na final contra a Suécia, o doutor Paulo Machado de Carvalho, sóbrio chefe da delegação brasileira, chamou rico:
- Negrinho, eu quero esta bola!
Por tradição, bola de jogo importante pertence a ‘‘sua senhoria’’, o árbitro. Brasil campeão, Mário Américo disparou na direção da pelota. Outras 20 pessoas tiveram a mesma idéia. Mas Maurice Guigue, o juiz, já estava com a bola debaixo do braço, protegido por três policiais.
O massagista assumiu a postura de guarda-costas do árbitro, até que surgiu a chance: um toque esperto, apanhou a bola e correu, perseguido por monsieur Guigue e pela polícia. Uma ginga pra cá, um drible de corpo pra lá, um policial no chão! Os torcedores suecos se divertiam com aquela cena chapliniana.
A malícia de Mário Américo ainda foi decisiva, minutos depois, no vestiário brasileiro. O árbitro apareceu bravo, acompanhado por dois soldados. O massagista entregou outra bola, que havia enrolado em uma toalha e pediu desculpas pela brincadeira. Monsieur Guingue só descobriu a troca em casa. Nunca se conformou.
A taça Jules Rimet era nossa pela primeira vez. Seria conquistada definitivamente com o tri, no México, em 1970. Mas acabou roubada da sede da CBF e derretida pelos ladrões. Os únicos brasileiros que detestavam ‘‘souvenir’’.

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