Nelson Capucho
Muito já foi dito sobre os pés, máquinas maravilhosas que podem ganhar uma Copa do Mundo (coelhos de aço sobre o verde do gramado) ou proporcionar coreografias mágicas nos espetáculos de balett (copos de lírio, numa imagem de Raduan Nassar). Mas quase ninguém conhece uma pesquisa do professor Ludwig Van Basten, pedólatra profissional que viveu durante algum tempo praticamente no anomimato em Rolândia, norte do Paraná.
O trabalho merece destaque pela sua originalidade. Segundo o professor Van Basten, os pés não são apenas objetos de fetiche e erotismo: na prática cotidiana têm sido utilizados ao longo dos anos como instrumentos de comunicação pela espécie humana. O pesquisador catalogou, por exemplo, alguns pisões e seus significados.
Carinhoso - O namorado pisa leve e discretamente no pé da namorada (ou vice-versa), para expressar desejo. Uma tribo já extinta no Senegal utilizava este ritual como forma de excitação mútua pré-matrimonial. Depois o noivo comia a noiva, literalmente, começando pelos pés.
Competitivo - Filas de toda espécie, aglomerações, ônibus lotados são os locais de incidência frequente desta modalidade. Pisão nestas circunstâncias representa obviamente a disputa pelo espaço na sociedade capitalista.
Enciumado - Empregado habitualmente por apaixonados sadomasoquistas em substituição aos beliscões, bolsadas e tabefes. Imaginam que ninguém percebe...
Agressivo - Atletas de esportes coletivos costumam utilizá-lo durante as disputas em campos e quadras. Normalmente o árbitro não vê. Jogadores de futebol também pisam na perna, na barriga, no pescoço. Uma coisa horrível!
Moleque - Antigo costume infanto-juvenil, ainda preservado em cidades do interior do Brasil. Usa-se para batizar calçados novos dos amiguinhos. Numa vinculação óbvia com o catolicismo, então religião dominante, evoluiu para batismo e crisma, que são dois pisões. Em alguns casos, o sapato fica velho depois de um só dia de uso.
Ousado - Não chega a ser exatamente um pisão: é aquele roçar de pés, sem sapatos, sob a mesa do restaurante. Muito comum em triângulos amorosos e idílios proibidos. Garçons experientes nem se importam mais com isso.
Como se percebe, o professor Van Basten é um estudioso dos pés e da alma. Na sua pesquisa não falta também espaço para assuntos que interessam apenas aos iniciados, como o funcionamento de músculos, ligamentos, tendões, calcâneos, cubóides e falanges, e um capítulo inteiro dedicado à descoberta do pó antisséptico. Para os leigos há ainda outras constatações curiosas como o que ele chama de cúmulo da dor: Imaginem - comenta o professor - um pisão de salto agulha 7,5 sobre o dedão com unha encravada. Putzgrila! Dói só de escrever.





