Nelson Capucho
Os insondáveis mistérios do universo
Ando meio intrigado ultimamente.
A leveza do ser é realmente insustentável e tudo o que é sólido se desmancha no ar. Mas, sei lá, tem alguma coisa estranha nesta ordenação do universo. Alguns livros, de certa forma, já abordaram o assunto, como o impagável ‘‘A Lei de Murphy’’, de Arthur Block (transcriado por Millôr Fernandes na edição brasileira). E deve ter algum filósofo alemão profissional pensando nisto também, entre um e outro chopp.
Uma das conclusões a que cheguei é que algo sempre dá errado quando é extremamente necessário que dê certo. Mas nada assegura que dará certo se for considerado desnecessário. Claro que isto não explica tudo. Aliás, não explica nada. Há tantas questões inexplicáveis no universo que a lógica do Criador permanecerá indecifrável até o fim dos tempos. E o pior vai ser encontrar-se com Ele um dia e ouvir a resposta: ‘‘As coisas são como são e não me encha o saco, pô!’’

O que me fez embarcar no submarino deste profundo questionamento filosófico noite dessas, além de algumas garrafas de vinho, foi uma experiência recente em Ciudad del Leste. Descobri que na cidade-mercado paraguaia, não importa o sentido ou o lado da rua, você invariavelmente encontra por um preço mais baixo o objeto que acabou de adquirir três lojas antes. Pode fazer o teste. Compre qualquer coisa, ande um pouco, entre em outro estabelecimento comercial e pergunte o preço: é batata!

E o mais interessante é que se você acreditar que aquela última loja é mais barateira que as outras, comprar outra inutilidade doméstica qualquer e retornar fazendo a pesquisa de preços, o fenômeno se repete. Impressionante.
Sinto a mesma estranheza em relação às filas de bancos e supermercados. Sempre que fico em dúvida entre duas filas, a que eu escolho anda mais devagar que a outra. Ou no caso de um molho de chaves de uma fechadura desconhecida, a chave certa é sempre a última. Assim também conspiram os semáforos: os vermelhos se multiplicam proporcionalmente à minha pressa. Estas ‘‘variáveis constantes’’ poderiam até render uma ‘‘antiteoria sobre os desacontecimentos’’.
Imagino que esta não-teoria se aplique igualmente à política. Quando o governo federal anuncia que será necessário um sacrifício de cabo a rabo no País, já sei: eles entram com o cabo e a gente entra com a outra parte. Em geral, de cada cinco medidas anunciadas pelo governo, quatro resultam em prejuízo para a maioria da população. A quinta, aparentemente benéfica, é justamente a que enrosca e acaba sendo engavetada.
Mistérios, mistérios...TOKS.TOKS.TOKS.TOKS.TOKS
# Quem assistiu ao show de Itamar Assumpção no Festival de Londrina, o Filo 98, pôde ver e ouvir uma canja da sempre interessante Alzira Espíndola. No dia do espetáculo estava à venda o CD independente desta cantora e compositora que debulha na música folk e no blues. Quem perdeu a chance, pode tentar conseguir o disco na ‘‘Baratos e Afins’’ (Av. São João, 439 - Loja 318 - São Paulo. Fone (011) 223-2629 . CEP 01035-000.
# A Editora Moderna está lançando ‘‘A Última Tropa’’, romance de Domingos Pellegrini, autor de ‘‘Tempo de Guerra’’ (contos - Ed. Companhia das Letras). Ainda este ano Pellegrini vai publicar o aguardado ‘‘Terra Vermelha’’.
# O londrinense Valdenir Teles Magalhães me envia o número 42 do boletim ‘‘Club Poético Pés Vermelhos’’. Espaço para os guerrilheiros da poesia: Caixa Postal 775 - CEP 86001-970 - Londrina, PR.

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